O Fórum de Piaçabuçu, no interior de Alagoas, foi palco de uma história rara e comovente no início de setembro. Aos 71 anos, Manuel Messias decidiu mover uma ação de investigação de paternidade para ter no registro o nome do homem que acredita ser seu pai: o senhor Otaviano Soares, de 100 anos.
“Chega num canto, num posto, e não tem o nome do pai”, contou Manuel, com a serenidade de quem esperou uma vida inteira por esse reconhecimento. O caso sensibilizou o juiz Rogério Alencar, titular da Comarca, que adaptou o procedimento à realidade das partes.
Diante das limitações de locomoção do centenário Otaviano, a audiência de conciliação e a coleta de material genético foram realizadas na própria casa do idoso, no povoado Sudene. A cena, marcada por emoção e simplicidade, reuniu servidores do Judiciário, familiares e profissionais da saúde.
A Secretaria Municipal de Saúde enviou um técnico de enfermagem para auxiliar na coleta do DNA, enquanto a oficiala de justiça e a conciliadora Jéssica Ferreira acompanharam todo o processo. “Foi muito importante levar a justiça a essas pessoas mais distantes. É muito mais fácil para nós irmos até lá do que eles enfrentarem o trajeto”, contou Jéssica.
Segundo o juiz Rogério Alencar, a medida cumpre a Resolução nº 425/2021 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que busca ampliar o acesso à Justiça e torná-la mais inclusiva. “A intenção do Judiciário é estar cada vez mais próximo da sociedade. O direito à ancestralidade está ligado à dignidade da pessoa humana”, afirmou.
Enquanto aguarda o resultado do exame, Manuel Messias vive dias de expectativa, mas também de esperança. “Tô ansioso por esse momento, de botar o nome dele no meu registro”, disse, com os olhos marejados.
Para a neta de Otaviano, Ana Maria dos Santos, o vínculo já existe há muito tempo. “Só falta formalizar. Todo mundo sabe que ele é o pai. O DNA é só pra colocar no papel.”
Em Piaçabuçu, o caso virou símbolo de como a Justiça pode ir além das paredes do fórum — alcançando, com humanidade e sensibilidade, histórias que esperaram uma vida inteira para serem contadas.







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