
A história de Marli e Cadu mostra que a maior proteção para um filho LGBT+ começa em casa. Foto: Acervo pessoal
“Mãe sente, não me venha com essa história de que mãe não sente, porque mãe sente.” Foi com essa certeza que Marli de Fátima Linhares Campos percebeu que seu filho, então com 12 anos, tinha algo para compartilhar. A vaidade, amizades selecionadas e jeito reservado eram pistas. Ao perguntar se ele gostava de alguém da escola e ouvir respostas evasivas, Marli arriscou: “Ah, já sei então, é um menino”. O olhar que se perdeu no chão confirmou sua intuição, segundo relato publicado pelo portal Vermelho.
O momento da revelação foi conduzido por Carlos Eduardo, conhecido como Cadu, que pediu tempo. Um ano depois, ele chamou a mãe para a conversa definitiva. “A minha obrigação era te dizer que não importa quem seja, a mãe vai estar sempre do teu lado para o que der e vier”, lembra Marli.
Esse acolhimento precoce moldou a trajetória de Cadu, graduando em Relações Internacionais e militante do PCdoB. “Por ter tido esse acolhimento tão positivo, sinto obrigação de trabalhar para que outros jovens tenham o mesmo suporte”, afirma.
Marli, decidida a se informar sobre diversidade, conheceu a ONG Mães pela Diversidade e trouxe o grupo para Chapecó, onde se tornou representante regional. O trabalho envolve acolher jovens LGBT+ expulsos de casa, orientar famílias e formar novas mães engajadas na causa. A resistência é grande: muitas participantes não conseguem se expor publicamente, mas Marli insiste que “se uma mãe não luta, quem vai lutar pelos filhos?”
Cadu destaca o peso político do acolhimento materno. “Quando a figura da mãe fala sobre direitos e dignidade, o impacto é diferente, especialmente em sociedades conservadoras. Isso transforma vidas”, afirma.
As Mães pela Diversidade atuam de forma concreta: acolhimento de jovens, orientação sobre alterações documentais e hormonização via SUS, além da capacitação de profissionais da saúde e educação. Esse trabalho tem efeito direto na prevenção de vulnerabilidades e na construção de cidadania para adolescentes LGBT+.
Em Santa Catarina, políticas conservadoras avançam. Projetos em tramitação incluem restrições a atividades pedagógicas sobre gênero, proibição de crianças em Paradas LGBT+ e exclusão de pessoas trans de competições esportivas. “Várias pautas foram importadas de outros estados”, observa Cadu, ressaltando a necessidade de resistência local.
A experiência pessoal de Marli, somada à militância de Cadu, mostra como o afeto se transforma em estratégia de luta. O acolhimento precoce não é apenas um gesto familiar, mas um mecanismo de proteção e educação para jovens LGBT+, refletindo na construção de políticas públicas mais inclusivas.
Para Marli, a luta já não é apenas pelo filho que está bem, mas por todos que ainda precisam se esconder. Juntos, mãe e filho combinam afeto, militância e políticas públicas para enfrentar preconceitos e garantir dignidade e direitos, demonstrando que a revolução do afeto é também uma revolução política.
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