Em 2004, o fotógrafo Tuca Vieira registrou, de helicóptero, uma imagem que se tornaria um dos maiores símbolos da desigualdade social no Brasil: o encontro entre as casas simples de Paraisópolis e o prédio de luxo do Morumbi, na Zona Sul de São Paulo.
Duas décadas depois, moradores da comunidade compartilham o que veem quando olham “de baixo para cima” — um ponto de vista que revela novas camadas dessa história.
Segundo reportagem do portal G1, o famoso prédio que domina a paisagem do Morumbi é mais do que um marco visual para quem mora em Paraisópolis: ele representa um contraste constante e quase cotidiano. “De baixo, o edifício parece ainda mais imponente, como um monstrengo”, disse Geovan Oliveira, diretor da União de Moradores de Paraisópolis.
O líder comunitário observa que a fotografia, que circulou o mundo e chegou a ilustrar livros didáticos, provoca maior impacto em quem a vê de fora do que entre os próprios moradores. “A foto fala muito mais para fora do que para dentro”, afirmou Geovan, destacando que, para quem vive a realidade retratada, a desigualdade é algo incorporado à rotina.
Paraisópolis é uma das maiores comunidades de São Paulo, com cerca de 10 km² de extensão, e convive lado a lado com condomínios de alto padrão e apartamentos avaliados em milhões de reais. Essa proximidade física, porém, não reflete integração social — as distâncias permanecem marcadas no acesso à renda, ao transporte e aos serviços públicos.
O registro de Tuca Vieira se tornou um marco visual e simbólico, utilizado para ilustrar o índice de Gini — que mede a desigualdade de renda — e em debates sobre urbanismo e exclusão social. Mas a nova leitura proposta pelos próprios moradores ressignifica o que a foto representa: não apenas um contraste entre luxo e pobreza, mas a coexistência de duas realidades que raramente se olham de frente.








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