Entre lágrimas e soluços, K, uma mulher indígena do povo Kokama, de 29 anos, rompeu o silêncio sobre o que viveu sob custódia do Estado. Presa em novembro de 2022 no município de Santo Antônio do Içá (AM), foi jogada numa cela com presos homens e passou nove meses e 17 dias sendo estuprada por agentes públicos, enquanto cuidava do filho recém-nascido.
Condenada por homicídio, K deveria estar em prisão domiciliar. Mas foi capturada após buscar socorro contra um companheiro violento. Só então soube de um mandado de prisão. Na cidade, sem cadeia feminina, ela foi colocada numa cela com três homens e ficou à mercê de policiais militares e de um guarda municipal. A prisão virou cenário de barbárie.
Ela foi vítima de estupros repetidos, ameaçada de morte, forçada a ingerir álcool e a realizar tarefas domésticas na delegacia. O laudo do Instituto Médico Legal confirmou conjunção carnal forçada, lesões compatíveis com violência e traumas físicos graves. As agressões ocorreram inclusive na presença do bebê. “Eu entrei em choque, em pânico”, relatou.
Foi só após ser transferida para Manaus, em agosto de 2023, que K se sentiu segura para denunciar os crimes. Desde então, desenvolveu depressão profunda, crises de pânico e ideação suicida. “Eu sinto que não vou mais ser normal”, disse. Exames indicam lesões físicas e agravamento do estado mental.
A Defensoria Pública ajuizou ação contra o Estado do Amazonas por danos morais, pedindo R$ 500 mil de indenização. O governo ofereceu R$ 50 mil — valor que a defesa classificou como “ridículo”. “Ela está em risco de vida”, disse o advogado Dacimar Carneiro.
O Ministério Público abriu investigação, mas até agora nenhuma autoridade do Estado confirmou se os policiais foram afastados ou punidos. A Polícia Militar, a Secretaria de Segurança e o MP foram procurados pela reportagem, mas não responderam até a publicação.
Enquanto isso, a mulher Kokama, marcada física e psicologicamente, segue lutando para sobreviver e por justiça. “Eu sei que cometi um crime. Mas o que fizeram comigo destruiu minha dignidade.”
Fonte: Reportagem do jornalista Rubens Valente, publicada no portal SUMAÚMA.





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