Um estudo realizado na Índia alerta sobre o impacto na saúde ocular do tipo de conteúdo consumido no celular. Ao comparar leitura de e-books, vídeos convencionais e vídeos curtos e dinâmicos populares nas redes sociais, os pesquisadores observaram que esses últimos sobrecarregam mais os olhos, provocando maior oscilação no tamanho da pupila e redução da frequência de piscadas, sinais comuns de fadiga ocular digital.
Publicada no Journal of Eye Movement Research, a pesquisa acompanhou 30 jovens adultos durante uma hora de uso contínuo do smartphone. Os pesquisadores criaram um sistema portátil para medir em tempo real a taxa de piscadas, o intervalo entre elas e o diâmetro da pupila. O equipamento, composto por uma câmera infravermelha acoplada a um microprocessador, registrou as alterações oculares sem interferir no uso natural do celular.
Ao longo do experimento, houve queda significativa na taxa de piscadas em todas as atividades analisadas: durante a leitura, ao assistir a vídeos mais longos e ao consumir vídeos curtos, como os Reels do Instagram. Esse comportamento faz com que os olhos permaneçam abertos por mais tempo, favorecendo o ressecamento e o cansaço visual. Enquanto o diâmetro da pupila se manteve relativamente estável na leitura e nos vídeos longos, nos conteúdos curtos e rápidos foram observadas variações mais intensas.
Segundo o oftalmologista Lucas Zago, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia, a fadiga ocular — clinicamente chamada de astenopia — é um conjunto de sintomas provocado pelo esforço contínuo do sistema visual, especialmente em tarefas de perto. Entre os fatores associados estão a redução da frequência de piscadas, o esforço de foco, brilho excessivo e iluminação inadequada.
De acordo com o especialista, vídeos curtos exigem adaptações constantes do sistema visual devido às mudanças rápidas de brilho, contraste e imagens. Esse esforço repetido favorece o surgimento da fadiga ocular, diferentemente de conteúdos mais estáticos, como a leitura. Na prática clínica, o aumento de queixas visuais associadas ao uso intenso de redes sociais já é observado, sendo esse conjunto de sintomas chamado por alguns especialistas de “reel vision syndrome”.
A motivação do estudo está relacionada à popularização do uso do smartphone. Em 2023, mais de 68% da população mundial já possuía um celular. No Brasil, em 2024, 167,5 milhões de pessoas com 10 anos ou mais utilizavam aparelho celular para uso pessoal, o equivalente a 88,9% dessa faixa etária, segundo a PNAD Contínua do IBGE.
Na pesquisa indiana, 60% dos participantes relataram desconforto ocular, dor no pescoço ou fadiga nas mãos. Além disso, 83% associaram o tempo excessivo de tela a ansiedade, distúrbios do sono ou exaustão mental.
Os efeitos oculares incluem ardor, lacrimejamento, visão borrada e dor de cabeça no curto prazo. A longo prazo, a redução frequente das piscadas pode agravar quadros de olho seco e comprometer a lubrificação ocular, especialmente em pessoas predispostas.
O especialista orienta atenção aos sinais persistentes, como dor ocular intensa, vermelhidão contínua, sensibilidade à luz, visão dupla ou dor de cabeça frequente, que exigem avaliação oftalmológica.
Entre as medidas preventivas recomendadas estão a regra 20-20-20 — a cada 20 minutos, olhar por 20 segundos para um ponto a cerca de seis metros de distância —, ajustar o brilho da tela, evitar o uso do celular no escuro, manter distância adequada dos olhos e piscar com mais frequência. O uso de lágrimas artificiais pode ser indicado, desde que com orientação médica.
Crianças merecem atenção especial. O sistema visual ainda está em desenvolvimento, e a exposição excessiva às telas está associada a maior risco de desenvolvimento e progressão da miopia. Crianças menores de dois anos não devem ter contato com telas, e atividades ao ar livre devem ser estimuladas.
Por Agência Einstein






0 comentários