
Além de enfrentar todos os danos da enchente, moradores são atormentados por mentiras | Gustavo Mansur/Palácio Piratini
A cada enchente, seca prolongada ou incêndio devastador, o Brasil parece redescobrir, em meio ao caos, sua incapacidade crônica de planejar, prevenir e proteger. Pior: revela a face mais perversa de uma engrenagem viciada, onde catástrofes naturais — que deveriam ser combatidas com políticas públicas sólidas e ciência — são vistas por políticos e empresários corruptos como chances de lucro rápido com dinheiro público.
Mais do que números frios, os dados do estudo “Panorama dos Desastres no Brasil – 2013 a 2024”, da Confederação Nacional de Municípios (CNM), escancaram o tamanho do problema: em pouco mais de uma década, os desastres custaram R$ 732 bilhões ao país.
Foram mais de 70 mil registros de situação de emergência ou estado de calamidade em 5.279 municípios — 94% do total. As perdas humanas e sociais são ainda mais dramáticas: 2.978 mortes, mais de 6 milhões de pessoas forçadas a deixar suas casas, 1 milhão desabrigadas, 5,1 milhões desalojadas e mais de 418 milhões de pessoas impactadas — muitas delas mais de uma vez.
No entanto, mesmo diante dessa devastação, o Brasil segue sem consolidar um sistema nacional e articulado de prevenção. Nos três níveis de governo — federal, estadual e municipal —, o planejamento raramente se sustenta como política de Estado. O que prevalece é a improvisação, os contratos emergenciais, os orçamentos inflados, a “indústria da tragédia”.
A cada decreto de calamidade, abre-se uma brecha para a dispensa de licitação, o superfaturamento, a contratação de empresas ligadas a aliados políticos e o velho balcão de favores entre poderes públicos e interesses privados.
O caso do Rio Grande do Sul em 2023 e 2024, com enchentes históricas que devastaram cidades inteiras, foi uma das faces mais visíveis da emergência climática, mas está longe de ser o único exemplo. A seca no Norte, onde rios amazônicos secaram em níveis inéditos, os incêndios no Pantanal e as enchentes cada vez mais frequentes em cidades litorâneas do Sudeste e Nordeste apontam para um país sob crescente estresse ambiental. Mas, apesar dos alertas da ciência, o que se vê é a negligência travestida de surpresa — ano após ano.
A lógica da destruição, no entanto, interessa a quem lucra com a reconstrução. Grandes contratos, liberação rápida de recursos, obras de impacto e promessas eleitoreiras formam o pacote completo que transforma tragédia em capital político e financeiro. A Braskem, por exemplo, firmou acordos judiciais que somam mais de R$ 12 bilhões após o afundamento de bairros inteiros em Maceió — e ainda assim há centenas de famílias que afirmam não terem sido plenamente indenizadas, recorrendo inclusive à Justiça internacional.
É preciso romper com esse ciclo. O Brasil não pode mais tolerar que catástrofes anunciadas continuem sendo tratadas como oportunidade de negócio para quem deveria proteger a população. É urgente que o país adote uma postura proativa na gestão de riscos, com investimentos consistentes em infraestrutura resiliente, sistemas de alerta precoce, mapeamento de áreas de risco e políticas públicas de adaptação climática, especialmente para as populações mais vulneráveis.
A perpetuação de um sistema que lucra com a dor alheia é uma afronta ética e humanitária. Combatê-lo exige não só a mobilização da sociedade, mas uma ação firme dos órgãos de controle, do Ministério Público, dos tribunais e, principalmente, uma mudança estrutural na forma como o Estado brasileiro lida com o território e sua gente. Transparência, planejamento e justiça climática não são apenas bandeiras técnicas: são condições para garantir que, diante das próximas tragédias, o Brasil não repita o mesmo roteiro de omissão, corrupção e morte.






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