Em julho de 2025, o Grupo Globo comemorou seu centenário com uma série de homenagens, programas especiais e campanhas institucionais. A celebração teve como destaque a série documental O Século do Globo, dirigida por Pedro Bial. Mas, segundo reportagem de Estevam Silva para o portal Opera Mundi, a narrativa adotada no episódio sobre a ditadura militar revela um contorcionismo argumentativo que tenta suavizar o apoio decisivo do conglomerado ao regime autoritário.
Fundado por Irineu Marinho em 1925, o jornal O Globo foi assumido por seu filho Roberto Marinho, que se aliou a oligarquias conservadoras, apoiou a UDN, fez oposição a Vargas e resistiu à criação da Petrobras. O jornal teve papel ativo na desestabilização do governo João Goulart e na legitimação do golpe de 1964, que pavimentou o caminho para que Marinho criasse a TV Globo com concessões generosas do regime militar.
A emissora consolidou-se com apoio da ditadura, financiamento irregular via Time-Life e até suspeitas de favorecimento após incêndios que atingiram concorrentes. Durante o regime, ocultou repressões e torturas, e resistiu à redemocratização, tentando fraudar a vitória de Leonel Brizola em 1982 e mentindo sobre os comícios das Diretas Já em 1984.
Mesmo com o fim da ditadura, a Globo continuou usando seu poder midiático para manipular a política. Em 1989, alterou a edição do debate entre Collor e Lula para favorecer o candidato conservador. Décadas depois, apoiou o impeachment de Dilma Rousseff e blindou a operação Lava Jato, alimentando o antipetismo e a radicalização da direita.
Segundo Opera Mundi, a trajetória da Globo é marcada por alianças com elites econômicas, sonegação fiscal, manipulação de mercado e escândalos como o “Papa-Tudo” e o caso Panama Papers. Com um lucro de R$ 2 bilhões em 2024 e fortuna estimada em mais de R$ 50 bilhões, a família Marinho mantém poder sobre a informação e a cultura no Brasil.
O centenário da Globo, portanto, escancara a influência de um império construído com o aval de regimes autoritários, favorecimentos estatais e práticas questionáveis. A celebração omite que, para além do jornalismo, a empresa moldou a realidade conforme seus interesses e ajudou a desenhar um Brasil sob sua narrativa.





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