Por Geraldo de Majella*
A cidade é, por definição, um território em permanente disputa. Disputa de projetos, de narrativas e de poder. Não se trata apenas da ocupação física do espaço urbano, mas da definição de como se vive, quem decide e quem se beneficia da organização da vida coletiva. Em Maceió e nas demais cidades de Alagoas, essa disputa tem sido travada de forma desigual — e a esquerda, partidos e movimentos sociais, ainda não se deu conta de que existir com representação social exige presença real na vida da cidade.
Pensar a cidade como território político implica compreender que as disputas centrais do nosso tempo acontecem nos bairros, nas escolas e universidades, nos locais de trabalho, nas periferias e no campo — e também nas redes sociais, novo campo em disputa. Quando a esquerda abdica dessa presença cotidiana, a direita e a extrema-direita ocupam o vazio, difundindo discursos autoritários, moralismos seletivos e projetos que transformam direitos em mercadorias.
No entanto, qualquer alternativa que se pretenda transformadora exige romper com a inércia, superar a lógica cartorial, sair da “zona de conforto” e assumir presença militante na disputa política da sociedade. Isso significa abandonar a rotina confortável das reuniões fechadas, das resoluções internas e das disputas intestinas para enfrentar adversários e inimigos nos territórios e espaços concretos do cotidiano da população, onde se manifestam os conflitos reais, a exclusão social e o domínio da classe dominante, que define para onde os trabalhadores são empurrados: guetos, grotas e periferias desassistidas.
Essa reinvenção passa, necessariamente, pela compreensão da necessidade de conexão com a vida real da população. Moradia, transporte, saúde, educação, violência, racismo, desigualdade social, trabalho precarizado e direito à cidade não são temas abstratos: são experiências amargas vividas diariamente pela população. Sem traduzir esses conflitos em ação política organizada, a esquerda corre o risco de falar apenas para si mesma.
Em Maceió e em Alagoas, o poder econômico, político e midiático é historicamente concentrado. A ausência de uma esquerda territorializada, com raízes nos bairros e na vida social, aprofunda a sensação de que não há alternativas. A política passa a ser vista como um espetáculo distante ou como uma disputa entre elites, enquanto a população se sente órfã de representação e de projeto coletivo.
O desafio colocado não é apenas de comunicação, mas de existência política. Reinventar a esquerda implica reaprender a escutar, a conviver, a organizar e a disputar os espaços políticos. Implica compreender que a cidade não é um cenário neutro, mas um campo de batalha simbólico e material. Sem essa compreensão, a esquerda tende a definhar, sobrevivendo apenas como adereço eleitoral — acionada em períodos específicos e descartada logo em seguida.
A reinvenção não é uma escolha estética ou geracional; é uma condição de sobrevivência política. Ou a esquerda se reconecta à vida real da cidade e dos territórios, ou continuará sendo tratada como força residual, tolerada apenas quando útil ao jogo institucional. Em um território permanentemente em disputa, a ausência também é uma forma de derrota.
*Historiador e jornalista






Poxa que LUCIDEZ Geraldo!
Você sintetizou em palavras a INÉRCIA SOCIAL da maioria significativa das alagoanas(os). Parabéns pela coragem em expor a REALIDADE.
Sou sua FÃ.