Mais de quatro meses após a interrupção do transporte escolar prometido pela Braskem, centenas de crianças e adolescentes das comunidades afetadas pelo maior crime socioambiental urbano em curso no mundo seguem sem acesso à educação. A denúncia é do Movimento Unificado das Vítimas da Braskem (MUVB), que alerta para a “violação estrutural de direitos” e cobra providências imediatas das autoridades públicas.
A tragédia causada pelo colapso do solo em cinco bairros da capital alagoana, atribuído à mineração de sal-gema da Braskem, não se limitou à destruição de casas. A infraestrutura educacional também foi aniquilada. Antes do desastre, apenas nos Flexais havia nove escolas, cinco delas públicas.
Com o esvaziamento forçado das comunidades, essas unidades deixaram de funcionar — e a única nova escola implantada pela empresa não passa de uma creche com estrutura parcial, incapaz de atender a demanda da população.
Durante o ano de 2024 e início de 2025, a Braskem forneceu transporte escolar gratuito para os alunos deslocados. Mas desde o início deste ano, o serviço foi cortado sem explicações. Crianças permanecem fora da escola, privadas do aprendizado, do convívio e do acolhimento proporcionado pela educação.
A situação se agravou com um acordo firmado entre a Braskem, a Prefeitura de Maceió e órgãos da força-tarefa (MPF, DPU, MPE-AL), que definiu uma indenização de apenas R\$ 8 mil a estudantes da rede municipal — valor considerado “simbólico e insuficiente” diante dos prejuízos. O acordo também exclui alunos da rede estadual, professores e demais membros da comunidade escolar.
“A Braskem tenta transformar direitos coletivos em compensações individuais mínimas, sem reparar a extensão dos danos”, afirma o MUVB. A entidade denuncia ainda a omissão das instituições públicas, que estariam coniventes com a “impunidade empresarial” ao não fiscalizar o cumprimento de cláusulas como o transporte escolar.
Outro ponto crítico é a destruição da malha de mobilidade urbana. O VLT, principal meio de transporte de baixo custo para os moradores, deixou de operar nos trechos afetados. Sem alternativas viáveis, estudantes, trabalhadores e idosos enfrentam o isolamento forçado, longe de escolas, empregos e serviços básicos.
Em reunião recente com pais da Escola Estadual Alberto Torres, o governo sugeriu transferir os alunos para uma nova unidade a 15 km de distância, no bairro Benedito Bentes. A proposta foi recusada. Uma comissão de pais foi formada para negociar com a Secretaria de Educação e o governador uma solução que permita a permanência dos estudantes em local mais próximo.
“Sem educação, não há reparação possível. Sem mobilidade, não há inclusão. E sem justiça para nossas crianças e comunidades, não haverá futuro digno para Maceió”, conclui a nota do MUVB.






0 comentários