Por Geraldo de Majella*
As décadas de 1980 e 1990, embora marcadas por grandes limitações institucionais, assistiram a importantes mobilizações de rua e ao fortalecimento de espaços de crítica e resistência. A população ocupava as praças, protestava, pressionava vereadores e acompanhava debates nas rádios, jornais impressos e na imprensa sindical e estudantil. Era um tempo em que a rua ainda era uma arena pública concreta — e a palavra circulava entre tabloides, panfletos e as páginas da Tribuna de Alagoas ou do Jornal de Alagoas.
Nesse contexto, mesmo com todas as dificuldades, cerca de um terço da Câmara de Vereadores de Maceió se engajava ativamente em pautas estratégicas, como a elaboração de um Plano Diretor com caráter preservacionista e estruturante. A preocupação com o ordenamento urbano e com o futuro da cidade era visível. Havia uma disputa entre projetos: de um lado, a cidade como espaço de vida, memória e pertencimento; de outro, a cidade como mercadoria.
O Plano Diretor, para esse grupo engajado de vereadores e setores da sociedade civil, representava uma ferramenta de resistência à especulação e de planejamento urbano responsável. Seu enfoque era duplo: proteger o patrimônio ambiental, histórico e paisagístico da capital alagoana, e estruturar o desenvolvimento com base em princípios de equilíbrio, justiça social e sustentabilidade.
Hoje, o cenário é outro — e, em muitos aspectos, alarmante. A crescente dependência da gestão municipal em relação a setores do empresariado ganancioso e predatório, que emergiu e se consolidou nas últimas duas décadas, tem comprometido gravemente a função pública do urbanismo. O que se observa é uma cidade submetida a um modelo extrativista, no qual o solo urbano é explorado até o limite, como se fosse uma jazida de lucro imediato, sem qualquer compromisso com o bem comum ou com as futuras gerações.
A política urbana de Maceió caminha perigosamente sobre dois pilares trágicos:
- A ausência de planejamento sério e democrático, substituído por decisões improvisadas ou feitas sob medida para os interesses empresariais;
- o avanço agressivo sobre áreas ambientalmente sensíveis, sem consulta pública efetiva, sem estudos de impacto sérios, sem contrapartidas sociais reais.
É o modelo extrativista predatório, de raiz colonial, adaptado ao urbano: prédios espremidos em áreas de proteção, espigões à beira-mar, ocupação de encostas frágeis e empreendimentos imobiliários sobre ecossistemas sensíveis, como os manguezais. Os exemplos mais gritantes estão no litoral Norte, com o ‘liberou geral’ para construções de edifícios pé na areia, e na área devastada pela Braskem, com bairros inteiros sacrificados. O lucro imediato de poucos se impõe brutalmente ao direito à cidade — que é de todos.
E, ao lado disso, a gestão pública se mostra conivente, omissa ou diretamente cúmplice. A aliança entre prefeitura e setor empresarial predador já não é sequer disfarçada. A cidade é tratada como balcão de negócios — e a gestão de João Henrique Caldas (JHC) tem se caracterizado por uma retórica sedutora nas redes sociais, mas por ações concretas que favorecem a especulação, o desmonte da participação popular e a destruição de políticas públicas de planejamento urbano.
A mobilização pelas redes sociais tem seu valor — mas não tem sido suficiente para barrar esse processo de desmonte. O enfrentamento político precisa ser direto, articulado e objetivo. Não basta criticar os prepostos do prefeito, como o presidente do Iplan. É preciso denunciar e enfrentar a própria lógica que orienta a aliança entre JHC e os interesses empresariais que atuam na desconstrução sistemática da cidade.
Falta uma coordenação clara entre ativistas, urbanistas, ambientalistas, mandatos populares e movimentos sociais, para identificar quais são as ações prioritárias, quais áreas correm mais riscos, e onde é possível concentrar forças. Uma dessas frentes é pressionar os Ministérios Públicos — Estadual e Federal — para que assumam o seu papel constitucional de defesa dos interesses difusos e coletivos.
O passado recente mostra que conquistas são possíveis — mesmo com menos recursos, menos visibilidade e muito mais repressão. O que não se pode aceitar é que a cidade seja saqueada à luz do dia, sob silêncio institucional e anestesia política. O enfrentamento precisa ser político, técnico e social — com voz, nas redes e nas ruas em permanente e constante ação.
*Historiador e jornalista






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