O impasse entre médicos e a Prefeitura de Maceió expõe um novo capítulo da polêmica envolvendo o Hospital da Cidade, antigo Hospital Arthur Ramos, comprado pelo município por R$ 266 milhões em uma das transações mais controversas entre o poder público e o setor privado da saúde na história da capital alagoana.
A aquisição, feita pela gestão do prefeito João Henrique Caldas (JHC), foi criticada desde o início por seu valor considerado exorbitante – apontado inclusive pelo senador Otto Alencar (PSD-BA) durante a CPI da Braskem, que classificou o montante como “fora da realidade” para um hospital já existente e com infraestrutura consolidada.
Do marketing político ao colapso operacional
Rebatizado como Hospital da Cidade (HC), o equipamento público se tornou uma das principais vitrines da campanha de JHC, apresentado como símbolo da “nova saúde de Maceió”. No entanto, a estrutura administrativa montada para gerenciá-lo tem sido alvo de críticas.
A gestão do hospital foi entregue ao Maceió Saúde, um Serviço Social Autônomo (SSA) — modelo que, na prática, transfere parte da execução e da gestão da saúde pública para uma entidade de direito privado. Desde a aquisição, especialistas e entidades médicas vêm alertando que a prefeitura não dispõe de corpo técnico próprio para gerenciar um hospital de alta complexidade.
Enquanto a administração municipal divulga números otimistas, como os apresentados em janeiro pelo diretor-presidente do Maceió Saúde, Mairon Rocha – que afirmou ter havido um aumento de 194% nas cirurgias, 57% nos procedimentos de hemodinâmica e ampliação no número de leitos, além de o hospital ter se tornado “referência em atendimento vascular” -, profissionais da saúde contestam esse discurso de sucesso. Médicos que atuam no Hospital da Cidade relatam uma realidade bem diferente, marcada por atrasos nos repasses, suspensão de serviços e dificuldades no atendimento cotidiano.
Médicos denunciam falta de pagamento e suspensão de serviços
Profissionais que atuam nos setores de ecocardiografia e ergometria usaram as redes sociais para denunciar a falta de pagamento por parte da Prefeitura de Maceió. Segundo os médicos, os repasses estão atrasados desde julho de 2025, e alguns serviços estão suspensos desde 6 de outubro.
Em comunicado, os médicos afirmaram:
“As atividades permanecerão paralisadas até que a situação seja devidamente regularizada. Contamos com a compreensão de todos e permanecemos à disposição para esclarecimentos.”
A nota ganhou grande repercussão entre os trabalhadores da saúde e pacientes que dependem dos exames cardiológicos oferecidos pelo hospital.
Gestão nega paralisação e diz que tudo funciona normalmente
Em resposta, o Maceió Saúde divulgou nota negando qualquer paralisação e afirmando que todos os serviços estão sendo prestados normalmente:
“O Maceió Saúde, instituição responsável pela gestão do Hospital da Cidade, o primeiro hospital municipal da história de Maceió, informa que todos os serviços seguem em pleno funcionamento, sem qualquer interrupção no atendimento à população.”
Até o momento, a Prefeitura de Maceió não apresentou explicações sobre o motivo do atraso nos pagamentos mencionados pelos profissionais nem sobre as denúncias de precarização interna.
Privatização disfarçada e alerta de especialistas
Desde o processo de compra do hospital, a gestão JHC vem sendo acusada por entidades da área da saúde e movimentos sociais de promover uma privatização disfarçada do sistema público municipal. O modelo de gestão por SSA – semelhante ao de Organizações Sociais (OSs) – permite maior flexibilidade administrativa, mas reduz o controle público direto sobre os gastos e a execução das políticas de saúde.
Para os críticos, a operação do Hospital da Cidade simboliza a subordinação da saúde pública aos interesses privados, enquanto a prefeitura tenta projetar uma imagem de modernização e eficiência administrativa.
Com denúncias de atrasos salariais, serviços suspensos e ausência de transparência, o hospital que nasceu como promessa de transformação pode estar se tornando o retrato de um modelo em crise – caro para os cofres públicos e incerto para os pacientes que dele dependem.






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