Em um cenário político brasileiro cada vez mais polarizado e, por vezes, irracional, uma questão intriga observadores e analistas: como explicar a lealdade incondicional de parcelas da população a certos líderes, mesmo diante de investigações, escândalos e provas que sugerem condutas questionáveis? A resposta, segundo a terapeuta e especialista em traumas religiosos Aline Câmara, pode ir além da simples ideologia, adentrando o campo da “captura emocional” e das dinâmicas de seita.
”Há algo profundamente equivocado quando, em pleno 2026, com o acesso à informação facilitado, pessoas tratam um político como uma entidade sagrada”, afirma Câmara. A especialista pontua que a observação de indivíduos que percorrem quilômetros, em condições adversas, enfrentando riscos e humilhações para defender figuras políticas investigadas, não se enquadra mais no conceito de apoio político tradicional. “Isso é outra coisa”, crava.
Aline Câmara descreve o fenômeno como um “ecossistema emocional e cognitivo” que não apenas premia a ignorância e despreza o conhecimento, mas ataca a ciência, transforma a arrogância em identidade e eleva a burrice a um símbolo de autenticidade. “Não é um acidente. É a base do movimento”, salienta, ao analisar o bolsonarismo como um exemplo dessa estrutura.
Em uma sociedade minimamente saudável, a expectativa seria de que a população saísse às ruas para exigir investigação, punição e responsabilidade dos seus governantes. No Brasil, contudo, observa-se uma parcela da população que faz o exato oposto: marcha para defender políticos sob investigação, relativizar crimes e transformar escândalos em “perseguição”. “Enquanto se discutem bandeiras, gritos e narrativas, os fatos permanecem intocados. O absurdo não é a existência de políticos corruptos – isso sempre existiu. O inacreditável é a existência de pessoas dispostas a se expor, passar vexame e se colocar em risco para proteger quem deveria estar prestando contas”, argumenta a especialista.
A terapeuta associa essa vulnerabilidade a dados alarmantes sobre o alfabetismo funcional no país. Segundo o INAF (Indicador de Alfabetismo Funcional), cerca de três em cada dez adultos brasileiros são analfabetos funcionais, e muitos outros possuem apenas o nível mais básico de alfabetização. Isso se traduz em milhões de pessoas que têm dificuldade em interpretar notícias corretamente, compreender textos complexos, distinguir argumento de opinião e identificar contradições lógicas. “Essa realidade abre uma fenda para a manipulação e a adesão a narrativas simplistas”, explica.
Para a especialista, o que se observa nessas manifestações não é um protesto genuíno, mas uma “cortina de fumaça”, um engajamento superficial que serve para desviar o foco do que realmente importa, utilizando pessoas para tal fim.
A captura emocional descrita por Câmara é um estado onde a mente de um indivíduo deixa de funcionar como a de um adulto responsável. A pessoa passa a agir movida pela obediência a um símbolo, uma ideia ou uma figura idealizada, mesmo que isso comprometa sua própria segurança e a segurança daqueles que deveria proteger.
”Toda seita possui três ingredientes fundamentais”, detalha Aline Câmara: “um líder idealizado, um grupo emocionalmente fragilizado e uma narrativa de salvação, ameaça ou perseguição.” Nesses contextos, o seguidor não defende ideias; ele defende um “vínculo emocional”.
O verdadeiro problema, segundo a especialista, não é o evento isolado – o “raio visível” – mas sim a existência de um grupo de adultos mentalmente capturados por uma narrativa. Pessoas que perderam a capacidade de avaliar riscos, de priorizar a própria vida, de proteger seus filhos e, crucialmente, de discernir e expressar que “isso é loucura”.
A análise de Aline Câmara acende um alerta sobre a necessidade de compreender as complexas teias psicológicas e sociais que sustentam a adesão incondicional a figuras políticas, especialmente em um momento onde a racionalidade e a capacidade crítica se mostram mais necessárias do que nunca para a saúde democrática.






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