Mais famílias endividadas, renda pressionada e uma dependência crescente do crédito para cobrir despesas básicas. Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic-CNC), analisados pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), apontam que o Brasil encerrou o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro com um cenário de maior fragilidade financeira para a população.
Entre dezembro de 2018 e dezembro de 2022, o percentual de famílias endividadas passou de 58,9% para 78%, um aumento de 19,1 pontos percentuais em quatro anos — o maior crescimento registrado na série histórica do levantamento.
Os números colocam em xeque a narrativa de recuperação acelerada da economia no período pós-pandemia. Segundo a análise, o crescimento do endividamento ocorreu em meio à combinação de fatores como inflação elevada, perda de renda, precarização do mercado de trabalho e expansão do crédito com juros altos.
A pandemia de Covid-19 agravou um cenário econômico já marcado pelo desemprego e pela informalidade. O auxílio emergencial lançado em 2020 ajudou a reduzir temporariamente os efeitos da crise social, mas especialistas avaliam que a redução gradual do benefício, somada à ampliação da oferta de empréstimos, favoreceu um ciclo de endividamento crescente.
Com a renda comprometida, muitas famílias passaram a recorrer a cartões de crédito, empréstimos consignados e financiamentos pessoais para custear despesas essenciais, como alimentação, aluguel, medicamentos e contas domésticas.
Além da queda no poder de compra, a inflação acelerou a pressão sobre os orçamentos familiares. Em 2021, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou em 10,06%, a maior alta desde 2015. Alimentos, combustíveis, energia elétrica e gás de cozinha estiveram entre os itens que mais pesaram no bolso dos brasileiros.
Ao mesmo tempo, o aumento da taxa básica de juros ampliou o custo do crédito. Entre março de 2021 e agosto de 2022, a taxa Selic saiu de 2% para 13,75% ao ano. No mesmo período, os juros médios cobrados das famílias passaram de 41,5% para 52,1% ao ano, enquanto modalidades como o crédito rotativo do cartão ultrapassaram taxas superiores a 400% anuais.
Outro aspecto apontado no estudo é a transformação do crédito em instrumento de sobrevivência. Em vez de financiar consumo ou investimentos, empréstimos passaram a ser usados para cobrir gastos cotidianos, criando um ciclo de parcelamentos sucessivos e acúmulo de juros.
A pesquisa também relaciona o avanço da informalidade e dos trabalhos de baixa remuneração ao aumento da vulnerabilidade econômica. Sem estabilidade e com renda variável, muitos trabalhadores ficaram mais expostos ao endividamento diante de imprevistos financeiros.
Em setembro de 2022, às vésperas das eleições presidenciais, 80,3% das famílias com renda de até dez salários mínimos estavam endividadas.
Para o Dieese, o cenário consolidou um modelo econômico marcado pela dependência do crédito como alternativa à perda de renda. O resultado, segundo a análise, foi uma população que não ampliou patrimônio nem poder de consumo, mas precisou recorrer ao parcelamento e ao endividamento para manter despesas básicas e atravessar um período de forte pressão econômica.







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