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Lobby das bets avança nos bastidores do Congresso e busca ampliar influência política

por | 16 jul, 2026

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Enquanto setores tradicionais da economia, como o agronegócio, mantêm estruturas formais de articulação política no Congresso Nacional, o mercado das apostas esportivas segue um caminho diferente: cresce nos bastidores, longe dos holofotes, mas com influência cada vez maior sobre decisões legislativas. É o que revela uma reportagem da Agência Pública, que mostra como empresas, associações e interlocutores ligados às chamadas “bets” vêm ampliando sua presença nas discussões sobre tributação, publicidade e regulamentação do setor.

Segundo a reportagem, o lobby das casas de apostas ainda não possui uma estrutura institucional consolidada como a da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), apoiada pelo Instituto Pensar Agro (IPA). Ainda assim, a estratégia das bets tem se mostrado eficiente. Fontes ouvidas pela Pública afirmam que a atuação acontece de forma “pulverizada”, por meio de parlamentares e representantes que articulam nos corredores do Congresso para barrar propostas consideradas prejudiciais ao setor.

Nas palavras de um interlocutor ouvido pela reportagem, a força das apostas se manifesta no “subterrâneo” das relações com deputados e senadores. Outro lobista resumiu a ambição do segmento ao dizer que construir uma estrutura semelhante à do agronegócio é “o sonho” das empresas de apostas.

A investigação também mostra que há receio entre parlamentares de associarem publicamente seus nomes ao mercado das apostas. O motivo é o desgaste da imagem do setor diante da população, impulsionado por debates sobre endividamento de famílias e casos de ludopatia (vício em jogos). Por isso, grande parte das articulações ocorre de forma discreta, em reuniões reservadas, eventos e encontros institucionais.

Um dos episódios destacados envolve o rompimento entre a Frente Parlamentar do Empreendedorismo (FPE) e o Instituto Unidos Brasil (IUB). Segundo a Agência Pública, a aproximação do instituto com empresas de apostas teria sido um dos principais motivos para o desgaste da relação. A reportagem revela ainda que representantes de casas como Rei do Pitaco e BetMGM participaram de reuniões promovidas pelo grupo e foram convidados a integrar uma nova frente parlamentar voltada ao ambiente de negócios. Posteriormente, a participação das empresas acabou barrada.

Apesar desse revés, o setor continua encontrando respaldo político. A reportagem aponta que a Frente Parlamentar Mista pelo Livre Mercado, composta por 187 deputados e 27 senadores, manifestou-se contra a criação do chamado Cide-Bets, tributo previsto em projeto de lei discutido na Câmara. Em nota, a frente argumentou que a cobrança poderia incentivar a migração de apostadores para o mercado ilegal, comprometendo a formalização da atividade.

A dimensão econômica ajuda a explicar o interesse político. Conforme dados citados pela Agência Pública, o mercado brasileiro de apostas movimenta cerca de R$ 360 bilhões por ano, segundo estimativa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O crescimento acelerado transformou o segmento em um dos principais grupos de pressão nas discussões sobre regulamentação e tributação no Congresso Nacional.

Embora o lobby seja considerado uma prática legítima em democracias, especialistas alertam para a falta de transparência das negociações. O economista e doutor em Direito Bruno Carazza afirma que o problema não está na existência da atividade, mas na ausência de regras claras para torná-la pública.

“O problema é a forma como isso se dá, porque no Brasil a gente não tem uma regulamentação. Se essas reuniões fossem transparentes, os setores que eventualmente fossem prejudicados por uma determinada decisão poderiam se organizar para contestar, levar outros argumentos e trazer a discussão para o debate público”, afirmou o especialista à Agência Pública.

A reportagem conclui que, mesmo sem uma estrutura oficial comparável à de outros setores econômicos, o mercado das apostas já ocupa espaço relevante na política brasileira. A influência acontece por meio de articulações discretas, negociações institucionais e disputas em torno de projetos que podem definir os rumos de um segmento bilionário e cada vez mais presente na agenda do Congresso.

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