Por Geraldo de Majella*
O presidente Lula voltou a ser alvo da imprensa empresarial brasileira por afirmar a soberania nacional na política externa. Sua presença na celebração do Dia da Vitória sobre o nazismo, em Moscou, despertou reações previsíveis nos editoriais do Estadão, da Folha e de O Globo — vozes que, historicamente, resistem a qualquer gesto de autonomia em relação à hegemonia ocidental.
A crítica midiática não é propriamente sobre a viagem, mas sobre o que ela representa: o Brasil recusando o alinhamento automático ao eixo Washington-Bruxelas. É a velha lógica da Guerra Fria transposta para o presente, onde Lula é tratado como suspeito sempre que age fora do script do Atlântico Norte.
No entanto, lá fora, o presidente brasileiro é recebido como estadista. Sua postura é vista com respeito em fóruns multilaterais, em encontros com chefes de Estado e até mesmo entre magnatas do capitalismo global, como Bill Gates. O contraste entre o reconhecimento internacional e a desconfiança interna revela um abismo: o da imprensa brasileira com o tempo histórico em que vivemos.
A viagem à Rússia não foi um capricho. Foi um gesto de memória e de diplomacia. A antiga União Soviética perdeu cerca de 24 milhões de vidas na Segunda Guerra Mundial — mais de 40% das mortes globais do conflito. Foram os soviéticos que entraram em Berlim e selaram o fim do nazismo. Honrar esse sacrifício vai além é reconhecer um marco civilizatório.
Ignorar essa dimensão histórica é apagar deliberadamente o papel da URSS na derrota do nazismo. Mas a mídia brasileira, herdeira de uma tradição que apoiou o golpe de 1964 e atuou como linha auxiliar da repressão, nunca se reconciliou com essa memória. Quando Lula defende a multipolaridade, fala com todos os blocos, articula os BRICS e reivindica um papel ativo para o Sul Global, ele perturba essa ordem narrativa e provoca reações defensivas.
Ao se opor a essa política externa, o que a velha imprensa rejeita não é Lula, mas a própria ideia de um Brasil soberano. Um Brasil que fala por si, que não se submete a potências, que busca construir caminhos autônomos em um mundo em transição. A crítica ao presidente funciona, nesse sentido, como uma espécie de censura informal à independência nacional.
Enquanto isso, a Guerra Fria continua — não nos palácios de Moscou ou nas bases da OTAN, mas nas redações brasileiras que insistem em tratar o Brasil como um país sem direito à própria voz.
Por Assessoria






0 comentários