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Prêmio Nobel da Paz de Maria Corina Machado gera polêmica ao ser entregue a Donald Trump

por | 18 jan, 2026

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Reprodução

O prêmio Nobel da Paz, entregue pela venezuelana Maria Corina Machado, laureada no ano passado, ao ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, reacendeu debates sobre o caráter político e controverso da premiação. Segundo reportagem da Agência Pública, a entrega ocorrida na última quinta-feira (15), em um encontro fechado na Casa Branca, foi celebrada por Trump em sua rede social Truth Social, como um reconhecimento pelo “trabalho que eu fiz”.

Machado, ex-parlamentar e líder da oposição a Nicolás Maduro, tem se posicionado de forma radical na política venezuelana, chegando a celebrar o sequestro do presidente Maduro em 2 de janeiro e apoiar Edmundo González como presidente. Apesar de González ter recebido 67% dos votos em contagens extraoficiais, a Justiça Eleitoral venezuelana declarou a vitória de Maduro com 51,2%, sem disponibilizar atas aos observadores internacionais, gerando crise diplomática.

A medalha entregue a Trump continha a inscrição de Machado: “em agradecimento pela sua extraordinária liderança em promover a paz pela força, promover a democracia e defender a liberdade e a propriedade”. A Fundação Nobel, porém, destacou que o prêmio não pode ser transferido, compartilhado ou revogado, ressaltando a singularidade do gesto.

Nobel como ferramenta política

Para Caio Rubini, mestre em pensamento político pela Universidade de Sussex, a ação de Trump e Machado não se trata apenas de vaidade. “Quando Trump acena para esse Nobel da Corina, ele está operando uma distorção completa no conceito de paz. É uma tentativa de ‘peacewashing’ — lavagem de imagem via prêmio”, afirma. Rubini considera a medalha uma moeda de troca simbólica dentro de disputas ideológicas e políticas.

A reportagem da Agência Pública também destaca outras polêmicas históricas envolvendo o Nobel da Paz, como indicações de Adolf Hitler (1939), Joseph Stalin (1945 e 1948) e Henry Kissinger (1973), além de premiações controversas posteriores, como as de Aung San Suu Kyi e Abiy Ahmed, que não corresponderam às expectativas de ações pacíficas após a premiação.

Críticas ao modelo de escolha

A professora Débora Tavares, doutora em literatura pela USP, questiona a composição do comitê norueguês responsável pelo Nobel, formado por cinco membros indicados pelo Parlamento da Noruega. Para ela, a escolha de Machado demonstra que o prêmio funciona como “uma extensão do corpo diplomático ocidental”, refletindo interesses ideológicos e geopolíticos mais do que méritos universais.

“O prêmio Nobel funciona mais como um espelho do narcisismo ocidental do que como um mapa dos feitos da humanidade”, diz Rubini. Segundo ele e Tavares, o sistema atual mantém regras de 1895, ignorando o contexto contemporâneo de descolonização, lutas antirracistas e emergência de novas potências.

Além da Paz, outros Nobel também enfrentaram críticas: o de Medicina de 1986, suspeito de influência da indústria farmacêutica, e o de Literatura de 2017, abalado por denúncias de assédio sexual envolvendo membros da Academia Sueca.

O caso de Trump e Machado reforça o debate sobre como a premiação, historicamente consagrada, se tornou uma ferramenta simbólica e política, frequentemente distante de seu ideal original de reconhecimento global da paz.

*Com Agência Pública

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