
Foto: Divulgação
A crise climática global, o avanço do negacionismo e a concentração de terras no Brasil foram colocados no centro de um debate político mais amplo durante a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos. Em tom de denúncia e convocação, lideranças de movimentos sociais, pesquisadores e ativistas apontaram a reforma agrária e a agroecologia como respostas estruturais ao colapso ambiental e às desigualdades sociais.
Um dos principais destaques da mesa foi a intervenção de Vânia Marques Pinto, presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), que escancarou a desigualdade no campo brasileiro: apenas 23% das terras agricultáveis estão nas mãos da agricultura familiar, enquanto 77% permanecem sob domínio do latifúndio. Para ela, essa estrutura sustenta um modelo econômico baseado na exportação de commodities, responsável por intensificar o desmatamento, ampliar emissões de gases de efeito estufa e aprofundar injustiças sociais.
Segundo a dirigente, há uma disputa direta de narrativas no país. De um lado, o agronegócio promovido como símbolo de progresso; de outro, a agricultura familiar, associada à preservação ambiental e à produção de alimentos. “É muita gente sem terra e muita terra sem gente”, sintetizou, ao criticar a lógica concentradora que marca o campo brasileiro.
A agroecologia apareceu como eixo central de resistência e alternativa concreta. Defendida como prática produtiva sustentável, sem uso de agrotóxicos e integrada aos ciclos naturais, ela foi apresentada como capaz de conciliar produção de alimentos, preservação ambiental e justiça social. No entanto, participantes alertaram que a transição para esse modelo depende de uma inflexão nas políticas públicas, hoje ainda concentradas no financiamento de monoculturas voltadas à exportação.
Outro ponto de convergência foi a relação entre negacionismo climático e o crescimento de forças de extrema direita. Para os debatedores, a negação da ciência e da emergência ambiental não é fenômeno isolado, mas parte de um projeto político que sustenta interesses econômicos e amplia desigualdades. Nesse contexto, o enfrentamento ao fascismo foi apontado como condição para viabilizar políticas ambientais efetivas.
A discussão também incorporou o conceito de justiça climática, com destaque para o impacto desigual das mudanças ambientais sobre populações vulneráveis. Mulheres, pessoas negras e moradores de periferias foram citados como os mais expostos a eventos extremos, como enchentes e ondas de calor. A crítica ao chamado “racismo ambiental” reforçou a necessidade de integrar políticas climáticas a agendas de combate às desigualdades históricas.
O caráter internacional do encontro ampliou o debate. Representantes de outros países trouxeram experiências que conectam crise climática, conflitos armados e soberania alimentar, evidenciando que os efeitos ambientais são mais severos justamente nas regiões menos responsáveis pelas emissões globais. A crítica ao modelo capitalista como motor da degradação ambiental também foi recorrente, com a defesa de alternativas sistêmicas baseadas no ecossocialismo.
Entre os consensos, destacou-se a urgência de articular reforma agrária, políticas ambientais e mobilização social como parte de um mesmo projeto político. A avaliação predominante é de que soluções graduais já não dão conta da velocidade da crise climática, exigindo mudanças estruturais tanto no campo quanto nas cidades.
Ao final, a conferência consolidou a ideia de que o debate ambiental ultrapassa os limites técnicos e se insere no campo das disputas políticas e ideológicas. Em jogo, segundo os მონაწილantes, está não apenas o modelo de produção, mas o próprio futuro das próximas gerações.





0 comentários