A descoberta de uma suposta “fazenda de bots” em um endereço ligado ao consultor político argentino Fernando Cerimedo, na Bolívia, lança luz sobre uma das estratégias usadas para tentar influenciar o debate público nas redes sociais: a fabricação artificial de engajamento.
Segundo o fiscal boliviano Luis Carlos Torrez Alarcón, uma busca em imóvel relacionado a Cerimedo encontrou uma estrutura descrita como uma “minigranja de bots”. O consultor, que já atuou para políticos de direita e extrema-direita na América Latina, está preso na Bolívia sob acusação de tentativa de feminicídio, acusação que sua defesa nega.
Mais do que simplesmente aumentar o número de curtidas ou compartilhamentos, estruturas desse tipo podem ser utilizadas para criar a impressão de que determinada opinião, candidato ou assunto possui uma adesão popular maior do que realmente tem.
A lógica é simples: quanto maior o volume e a velocidade de interações em torno de uma publicação, maior a possibilidade de o conteúdo ganhar visibilidade nas plataformas. Uma rede artificial pode, portanto, funcionar como uma espécie de impulso inicial para fazer uma mensagem ultrapassar o ambiente controlado pelos perfis falsos e chegar a usuários reais.
O pesquisador Reynaldo Aragon, do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação, explica que as contas podem atuar de maneira coordenada, repetindo mensagens, impulsionando hashtags e compartilhando os mesmos conteúdos em intervalos curtos.
Na prática, a operação busca simular uma mobilização espontânea. Um tema que parece estar dominando as redes pode, em determinados casos, ter sido artificialmente impulsionado por uma rede organizada de contas.
Influência sobre a percepção pública
O cientista político Alexandre Arns Gonzales, integrante do Direito à Comunicação e Democracia (DiraCom), afirma que as fazendas de cliques podem ser empregadas para manipular as métricas que determinam a visibilidade dos conteúdos.
A estratégia pode servir tanto para promover quanto para atacar candidatos, perfis e determinados assuntos. Ao produzir artificialmente visualizações e interações, a operação interfere nos sinais utilizados pelas plataformas para definir o que será mais exibido aos usuários.
O efeito não depende necessariamente de convencer diretamente uma pessoa. A própria percepção de que determinado conteúdo está “bombando” pode influenciar o comportamento de outros usuários, estimulando novas interações e ampliando o alcance da mensagem.
Esse mecanismo ganha importância em períodos eleitorais, quando a disputa por atenção nas redes se intensifica e os debates políticos passam a ser fortemente influenciados pela circulação de conteúdos digitais.
Bots não precisam substituir pessoas
Especialistas ressaltam que o objetivo de uma operação desse tipo não é necessariamente criar um debate inteiramente artificial. O que se busca pode ser justamente provocar uma primeira onda de engajamento capaz de alcançar pessoas reais.
Uma publicação impulsionada por milhares de contas automatizadas pode chegar a usuários comuns, que passam a comentar ou compartilhar o conteúdo sem necessariamente saber que a movimentação inicial foi fabricada.
Assim, uma rede artificial pode funcionar como catalisadora de uma campanha de influência: cria volume, velocidade e aparência de consenso para tentar alterar a trajetória de uma discussão pública.
Estratégia conhecida em eleições
Operações com redes coordenadas de contas já foram identificadas em diferentes países e são acompanhadas pelas próprias plataformas digitais. Segundo especialistas, a manutenção dessas estruturas exige equipamentos, celulares, contas e recursos humanos, o que revela que não se trata apenas de uma ação espontânea de usuários.
No Brasil, o tema ganha relevância diante da proximidade das eleições. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vem cobrando das grandes plataformas mecanismos de conformidade e medidas para enfrentar comportamentos inautênticos coordenados.
Para os especialistas, a identificação de possíveis fazendas de bots é importante não apenas para retirar contas falsas do ar, mas para compreender como uma operação artificial pode interferir na agenda e na percepção dos eleitores.
O caso envolvendo Cerimedo ainda está sob investigação na Bolívia. A eventual utilização da estrutura encontrada para influenciar debates políticos ou campanhas não foi estabelecida pelas autoridades, mas a descoberta recoloca no centro da discussão o poder das redes artificiais de fabricar popularidade e alterar a dinâmica do debate público.






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