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Onde está meu filho, doutora?

por | 14 jun, 2025

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Reprodução

Mércia Albuquerque Ferreira, advogada, pernambucana, mãe, militante dos direitos humanos, trata em seu diário escrito entre 1973/1974, do massacre de centenas presos políticos na ditadura militar, no período de 1964 a 1985. Ela dedicou a sua vida à defesa de muitos jovens presos, encarcerados, oriundos da região nordeste.

Como companheira, mãe, deixa o sossego da sua família e vai conviver com a dor, a violência, o charco de sangue e a morte de presos políticos. Enfrenta com bravura os tribunais compostos de juízes submissos e quartéis sob o controle de verdugos, na defesa do último jovem sequestrado, preso e, talvez, já sem vida. A batalha de Mércia não obedecia hora marcada, descanso, intervalo. Acordava na madrugada com um pai, uma mãe ou a família inteira a pedir socorro por um filho sequestrado, talvez já agonizando no chão frio de celas infectadas, de quartéis sem leis, sem civilidade, sem razão. Famílias que queriam saber onde estaria aquele menino abruptamente levado, sequestrado.

É que Mércia era serva da esperança, da coragem, da justiça e da humanidade. Sim, ela era um ser humano por inteiro. A crítica ao regime militar era o ideário abraçado por essa militante política. Para ela um instrumento de progresso da humanidade, caminho escolhido para seguir e lutar. Assim Mércia mergulhou nas trevas do sofrimento humano. E é nessa condição que travou a luta possível da sua vida, no período na ditadura. Seu amor infinito pelos jovens, que sonhavam, sempre a impulsionou a lutar. Nem a dureza do enfrentamento a fez desistir.

Ao redor de Mércia gritava o desespero, ouvia-se o gemido da dor, o terror do pau de arara, a incerteza da vida. A brutalidade dos coronéis era a expressão secular da ira que desabava sobre o povo e sobre quem lutasse por sua emancipação. Aqueles jovens encarcerados, torturados já não retornavam à mocidade, refletia Mércia. É que eles acumulavam nas masmorras as angústias da derrota da luta por reformas, por democracia e por liberdade e as feridas da tortura imprimidas por seus carrascos nos porões fétidos das prisões.

Sabe-se: as ditaduras não cultivavam um solo fértil para a benevolência, a amizade, a compaixão e a aceitação da crítica, foi nesse chão encharcado que Mércia lutou, em um ambiente de ameaças e repressão. Ela foi presa 12 vezes pela ditadura, entre 1964 a 1973, pelo exercício da advocacia na defesa de presos políticos. De tão angustiante condição, dizia Mércia: queria voltar a ser criança, porque criança não tem passado, ainda não têm lembranças. Elas não guardam a crueldade da ingratidão, da indiferença, da força e da violência.

Enfim, Mércia, em seu DIÁRIO, nomeia os torturadores, os algozes da juventude de então, um a um.

Ela foi advogada de quase todos os presos políticos do Rio Grande do Norte no período da ditadura militar. Entre eles estão: Emanuel Bezerra dos Santos, Luciano Almeida, Moisés Domingo… Esses eram jovens, muito jovens, à época: Emanuel tinha 26 anos, (1947/1973); Luciano Almeida 27, Moisés Domingos Sobrinho 20 anos (1953/1973).

Essa é a história da humanidade de Mércia, tudo devidamente registrado em seu diário escrito entre 1973/1974. Publicado por Roberto Monte, militante do Centro de Direitos Humanos e.da Universidade Popular

www.dhnet.org.br

Geraldo de MARGELA Fernandes, Natal RN

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