Por Duse Leite*
Faz três meses que me mudei. Três meses.
Em teoria, esse seria um tempo suficiente para desfazer as malas, organizar os armários e finalmente saber onde estão as coisas. Na prática, ainda convivo com caixas espalhadas pelo quarto como se estivesse de mudança desde o século passado.
Todos os dias olho para elas com certa esperança.
— Hoje vocês vão embora.
Elas olham para mim e respondem:
— Não conte conosco.
Abro uma caixa, tiro algumas coisas, arrumo uma gaveta e, misteriosamente, as mesmas coisas voltam para dentro da caixa. É como se elas tivessem vontade própria.
O guarda-roupa já declarou lotação máxima. Não cabe mais uma blusa, um lenço ou uma única meia. Eu mudo as roupas de lugar, troco as prateleiras, empilho caixas, faço experiências dignas de um engenheiro espacial, mas o espaço continua o mesmo.
O mais intrigante é que não comprei nada.
Saí da outra casa com as mesmas coisas. As mesmas roupas, os mesmos livros, as mesmas lembranças. Porém, ao chegar aqui, tenho a impressão de que tudo se multiplicou.
Suspeito que as caixas se reproduzem durante a madrugada.
Talvez os cabides tenham filhos. Talvez as toalhas convidem parentes. Talvez os livros realizem encontros secretos quando as luzes se apagam.
Só sei que três meses depois da mudança ainda moro entre o “já arrumei” e o “depois eu vejo”.
Começo a acreditar que certas caixas não são feitas para serem abertas. Elas apenas nos acompanham pela vida, mudando de endereço, acumulando objetos que um dia foram indispensáveis e que hoje nem sabemos por que guardamos.
Enquanto isso, continuo tentando descobrir onde colocar as coisas.
Ou talvez sejam as coisas que estejam tentando descobrir onde me colocar.
*Funcionária pública e jornalista





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