Por Eleonora Duse Leite (@duseleite)
É uma reflexão importante e dolorosa sobre o que vem acontecendo no Brasil – e, também em Alagoas. Questões profundas sobre desigualdade de gênero, machismo estrutural e a cultura da posse que ainda cruza muitas relações.
Um tom de perplexidade, de quem não consegue entender tamanha injustiça – é na verdade, a manifestação lógica, perversa que naturaliza a violência contra a mulher. O feminicídio é a ponta mais trágica dessa corrente.
A mulher não tem direito a reconstruir sua vida. Isso é cruel. Porque esse direito é básico, é humano. A separação deveria ser o fim de um ciclo que não estava se realizando, infeliz, e não o início de um risco à vida.
Em Alagoas, como em tantas partes do Brasil, mulheres seguem sendo ceifadas por homens que não aceitam o fim de um relacionamento. O que deveria ser apenas uma separação – o direito de ir embora – transforma-se, em muitos casos, em uma sentença de morte. O nome disso é feminicídio: a forma mais brutal e covarde de violência de gênero.
De acordo com os dados da Secretaria de Segurança Pública de Alagoas, somente em 2023 foram registrado 28 casos no estado. Dados atualizados do primeiro trimestre de 2024 mostram que o estado registrou nove feminicídios entre janeiro e março, um aumento em relação ao mesmo período do ano anterior. Em 2025 foram registrados treze vítimas apenas nos cinco primeiros meses, revelando um crescimento constante e crescente. São histórias que poderiam ter terminado de outro jeito – com liberdade, recomeço de vida – mas terminaram com silêncio e luto. São gritos que não podem continuar sendo ignorados. Reconhecer o direito da mulher de reconstruir sua vida é o mínimo. E terminar um relacionamento não deveria ser uma sentença. Nenhum sentimento de ciúme, rejeição ou raiva pode justificar tal ignorância. O fim é interpretado pelo homem como desafio de autoridade, como uma humilhação que precisa ser “vingada”. Esse desequilíbrio aflora a cultura machista ainda enraizada na sociedade brasileira.
O feminicídio não é apenas um ato de violência individual, mas a consequência de um sistema amargo que coloca o homem como dono, proprietário da mulher. E isso já acabou faz tempo, acabou a escravidão em 13 de maio de 1888. Acabou desde 1962, quando o marido era dono, senhor todo poderoso, com o Estatuto da Mulher Casada, a mulher deixou de ser considerada incapaz e acabou com a tutela do marido sobre ela, mas só em 1988 cm a Constituição e o Código Civil de 2002 é que a igualdade jurídica veio, plena entre os casados se tornou real no papel.
A Lei Maria da Penha, em vigor desde 2006, representa um marco na luta contra a violência. Ela prevê medidas como afastamento, proibição de contato. Mas na prática, muitas mulheres enfrentam um caminhar lento e ineficiente. A denuncia é feita, mas o agressor recebe a passos de tartaruga, a dias até semanas a notificação. E nesse tempo, a mulher vive constante ameaça e muitas vezes o crime antecede a qualquer medida protetiva.
Em Alagoas, as Delegacias da Mulher e os Centros de Apoio fazem o possível com recursos limitados. Ainda assim, o sistema precisa ir além da repressão: é preciso prevenir, acolher, educar, transformar.
Reconhecer o direito da mulher de reconstruir sua vida é o mínimo. Porque quem ama, de verdade, deixa viver.
Escrevo este artigo movido por profunda inquietação e tristeza diante dos casos que vem se repetindo no nosso estado. Como mulher, cidadã alagoana, não posso silenciar diante da violência que tenta impedir tantas de nós de simplesmente recomeçar. Meu desejo é que este texto provoque reflexão, empatia e ação. Porque toda mulher tem direito de viver – e de viver em paz.





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