Enquanto representantes do agronegócio brasileiro celebravam presença e visibilidade na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), realizada em Belém (PA) em novembro, o mesmo setor intensificou, logo após o fim do evento, sua atuação no Congresso Nacional em favor de propostas criticadas por ambientalistas por enfraquecer a proteção de biomas e direitos de povos tradicionais. A análise é de uma reportagem publicada pela Agência Pública.
Em eventos paralelos à conferência, organizados pelo setor e patrocinados por grandes empresas e entidades como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), produtores e executivos defenderam a presença do agronegócio na COP30 como oportunidade de mostrar ao mundo que a agricultura brasileira “faz parte da solução” para a crise climática. “O setor começou o ano questionando se valia a pena o agro estar ou não na COP. Se a gente ia ou não”, disse Francila Calica, diretora para América Latina de agricultura e sustentabilidade da Bayer, em um dos encontros informais com produtores.
Calica ressaltou que havia preocupação, inclusive dentro do setor, com possíveis protestos e “bagunça” em torno da participação do campo na conferência — medos que, segundo ela, foram superados com a participação em espaços como a chamada Agrizone, exibindo práticas consideradas sustentáveis. “A gente precisa estar nesses lugares desconfortáveis para a nossa narrativa”, afirmou.
Mas essa narrativa de sustentabilidade foi severamente confrontada por decisões políticas no Congresso Nacional logo após o encerramento da COP30, segundo a reportagem. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), bancada que reúne deputados e senadores alinhados aos interesses do setor, atuou de forma decisiva para derrubar vetos do presidente da República ao novo marco do licenciamento ambiental — uma legislação alvo de críticas de ambientalistas e especialistas por reduzir exigências de fiscalização e proteção de áreas sensíveis.
Autoridades ambientais ouvidas pela Agência Pública foram duras ao comentar as mudanças. Rodrigo Agostinho, presidente do Ibama, afirmou em entrevista que a derrubada dos vetos prejudica mecanismos de controle ambiental e pode comprometer a confiança em cadeias de compra sustentáveis. “Você vai ter situações de propriedades rurais que não têm o CAR [Cadastro Ambiental Rural] analisado … e dificuldade de comprovar que estão regulares perante as questões ambientais”, disse.
A matéria também destaca que a nova legislação aprovada dispensa a necessidade de licenciamento para atividades agropecuárias mesmo sem a validação do CAR, retira proteção especial de biomas como a Mata Atlântica e agiliza a aprovação de projetos de infraestrutura considerados de “interesse estratégico” — mudanças que geraram críticas de ambientalistas e organizações da sociedade civil.
Para parte das lideranças do agronegócio, no entanto, a participação na COP30 foi um sucesso que reforça o papel do setor como protagonista em temas climáticos. Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e enviado especial do agro à COP30, afirmou que o evento ajudou a consolidar a visão de que a agricultura tropical deve ser vista não como parte do problema, mas como parte da solução.
O contraste entre o discurso em fóruns internacionais e as ações políticas internas coloca em evidência o que especialistas consideram uma contradição central no agronegócio brasileiro: a busca por legitimação verde no cenário global enquanto se apoia a flexibilização de normas ambientais e direitos territoriais no país — um debate que promete continuar nas próximas semanas no Congresso e no debate público nacional.







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