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El Niño: o menino que amedronta

por | 2 jul, 2026

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Por Ricardo Ramalho*

Em 2016, Alagoas chegou ao ápice de uma crise dramática de escassez hídrica que perdurou e se agravou por seis anos. Segundo dados oficiais da época, 86% da área do Estado alcançou a classificação de seca extrema ou excepcional, chovendo, naquele ano, apenas 40% da média esperada de chuvas. Ocorreu uma estiagem devastadora que secou reservatórios diversos de água superficial, como açudes, barragens, lagos, além de cacimbas, nascentes e poços. O fenômeno climático não se limitou à região semiárida do Estado, mas, a todos os territórios, provocando prejuízos às agricultoras e agricultores, da totalidade das categorias e das lavouras em geral, desde às mais exigentes em água aquelas menos. A produção agropecuária foi, significativamente, diminuída, por falta de chuvas. Pastos, frutas, grãos, hortaliças minguaram drasticamente. Observaram-se coqueiros e canaviais definhando e morrendo, em pleno litoral, normalmente, de farta precipitação pluviométrica. Com essa calamidade pública, o governo e a sociedade se mobilizaram para enfrentar a situação e uma série de medidas e providências foram encaminhadas para amenizar o problema da falta de água.

Passada uma década, surge nova ameaça, além das mudanças climáticas que se verificam em todo o mundo: El Niño, que em espanhol significa “O Menino”, nome que os pescadores referenciam ao Menino Jesus, uma vez que o fenômeno do esquentamento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, ocorre na época natalina. Provoca uma sequência de modificações climáticas, principalmente, na temperatura e no volume das chuvas, seja por excesso ou falta. No Nordeste se reflete com seca e calor intenso.

A última nota técnica, de um conjunto de instituições que analisam as possibilidades de ocorrência do El Niño, de maio passado, apontam que seus efeitos se iniciam no segundo semestre do ano em curso, podendo se estender até 2027. Quanto a intensidade, as previsões, ainda, são de que se situe como moderada ou forte. Os riscos para a agricultura situam-se em chuvas abaixo da média, com intervalos de veranicos nas épocas críticas, principalmente das lavouras típicas da agricultura familiar como milho, feijão e mandioca, como na germinação, floração e enchimento dos grãos. Também, em função da diminuição das chuvas e aumento do calor, os pastos naturais apresentam menor desenvolvimento e ocorre uma redução da rebrota da vegetação nativa da Caatinga. Somem-se, ainda, prejuízos, inicialmente não percebidos de degradação dos pastos pelo superpastejo dos rebanhos.

Nas duas semanas passadas, as informações populares e observações in loco na região semiárida do Estado, o cenário é, nitidamente, de mais irregularidades na frequência de chuvas e baixo volume para as médias tradicionais, dessa época, caracterizada como, tipicamente, invernosa.

Frente as evidências, cada vez mais presentes dos efeitos do El Niño, cabe aos governos se anteciparem ao agravamento da questão climática e montar um plano estadual de emergência que reúna esforços e ideias nesse sentido. Por esses motivos de previsibilidade desses riscos climáticos pela ciência, não cabe a desculpa da falta de informação, existindo, em verdade, ausência de planejamento governamental e na adoção de ações reativas de desastres naturais anunciados antecipadamente que se transformam em verdadeiras tragédias sócio ambientais. O que se espera do poder público e da sociedade civil, organizada em áreas correlatas ao problema, saber encontrar medidas paliativas e estruturantes de enfrentamento da questão. Para tanto, é essencial escutar a Natureza e os ensinamentos da etnoecologia, através das mestras e mestres do saber popular, mesclados e fortalecidos pelo conhecimento e informações da ciência.

*Engenheiro agrônomo e ambientalista

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