Texto de Fabrício Carnavalli e Vanderlei Tenório
Em ano eleitoral, as pesquisas voltam ao centro da vida pública brasileira. Elas aparecem nos telejornais, circulam nos grupos de mensagens, ocupam manchetes, alimentam estratégias partidárias e, não raro, tornam-se motivo de briga em conversas de família. Em 2026, com uma nova eleição presidencial no horizonte, esse fenômeno tende a se repetir com intensidade ainda maior.
Mas, por trás dos percentuais que sobem ou descem a cada rodada, existe uma pergunta menos simples. Até que ponto as pesquisas eleitorais brasileiras são confiáveis?
A resposta exige mais cuidado do que costuma aparecer nas redes sociais. Uma pesquisa eleitoral não é uma previsão fechada do futuro, nem uma sentença sobre o resultado das urnas. Ela é, antes de tudo, uma radiografia estatística de determinado momento, produzida a partir de uma amostra da população, segundo critérios técnicos, dentro de um intervalo de tempo específico e com determinada metodologia de coleta.
Essa radiografia pode ser mais nítida ou mais turva dependendo da qualidade do desenho amostral, da forma de abordagem, da distribuição territorial dos entrevistados, da ponderação dos dados e da transparência com que o levantamento é apresentado ao público.
O problema é que, no debate público, quase sempre se pula essa parte. O eleitor vê o número final, compara com outra pesquisa divulgada no mesmo período e conclui, muitas vezes de forma apressada, que uma delas está “certa” e a outra “errada”.
Por exemplo, se o instituto mostra determinado candidato com 35% e outro aponta 39%, a diferença logo vira suspeita. E quando o resultado da eleição não coincide exatamente com o último levantamento publicado? A pesquisa logo passa a ser tratada como fraude. Essa leitura, embora compreensível em um ambiente político polarizado, empobrece a discussão.
Nos últimos anos, a credibilidade dos institutos tornou-se tema recorrente. Relatórios, rankings e comparações passaram a circular tentando medir quais empresas “acertam mais” ou “erram menos”.
O esforço pode ser útil, desde que seja interpretado com cautela. Institutos diferentes podem usar métodos diferentes, coletar dados em períodos diferentes, alcançar públicos distintos e aplicar modelos próprios de ponderação. Comparar todos como se estivessem realizando exatamente o mesmo trabalho é uma simplificação sedutora, mas insuficiente.
Ao ser questionado sobre a existência de uma metodologia perfeita, Marcelo Gaudio, Doutor em História pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), foi categórico:
“Não existe metodologia perfeita…Assim, a escolha metodológica depende dos objetivos do estudo, do orçamento disponível e das características da população pesquisada”, explica.
A afirmação desloca o debate do terreno da desconfiança automática para o campo mais produtivo da análise técnica. A questão não é perguntar apenas qual instituto “acerta mais”, mas compreender como cada pesquisa foi feita, quem ela conseguiu ouvir, quem eventualmente ficou sub-representado e quais limites acompanham seus resultados.
Uma história mais antiga do que parece
As dúvidas e controvérsias que hoje cercam as pesquisas eleitorais estão longe de ser um fenômeno recente. Segundo Marcelo, as pesquisas de opinião começaram a ganhar relevância no Brasil ainda na década de 1940, especialmente com a criação do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), em 1942.
Antes disso, veículos de imprensa e empresas já realizavam sondagens pontuais, mas foi a institucionalização da pesquisa de opinião que introduziu métodos mais precisos, replicáveis e profissionalizados.
No início, o foco estava menos nas eleições e mais na audiência de rádio, nos hábitos de consumo e na compreensão de comportamentos sociais. Aos poucos, porém, os levantamentos passaram a dialogar com o ambiente político.
Marcelo afirma que a consolidação das pesquisas eleitorais, como parte permanente da vida democrática brasileira, ocorreu principalmente a partir da redemocratização. Com o retorno das eleições diretas e a reorganização do sistema partidário, conhecer o eleitor deixou de ser apenas uma curiosidade acadêmica ou jornalística. Tornou-se ferramenta estratégica para campanhas, partidos, governos e imprensa.
A partir dos anos 1980, os levantamentos passaram a orientar decisões de comunicação, medir rejeições, testar cenários, acompanhar avaliações de governo e construir narrativas sobre o rumo das disputas.
Essa trajetória ajuda a explicar por que as pesquisas ocupam um lugar ambíguo no Brasil. Ao mesmo tempo em que são instrumentos técnicos, também são objetos políticos. Informam, mas também influenciam. Descrevem tendências, mas também entram no jogo das percepções. Um candidato que aparece crescendo pode ganhar atenção, recursos e entusiasmo de apoiadores. Um candidato em queda pode enfrentar pressão interna, perda de fôlego e mudança de estratégia.
Nesse sentido, a pesquisa não apenas observa a eleição de fora: ela passa a fazer parte do ecossistema eleitoral.
É justamente por isso que a confiabilidade das pesquisas precisa ser analisada com rigor, e não com o propósito de ver qual time está ganhando. Sem essa rigorosidade, a desconfiança de tudo aparece, e ela é tão problemática quanto acreditar em tudo.
Assim, uma maturidade democrática exige um caminho intermediário: reconhecer a importância das pesquisas, entender seus limites e cobrar transparência dos institutos, sem transformar divergências metodológicas em prova automática de manipulação.
O desafio de representar um Brasil diverso
Falar sobre pesquisa eleitoral no Brasil é falar, inevitavelmente, sobre território. O país tem dimensões continentais, desigualdades profundas e realidades sociais que variam significativamente de uma região para outra. Ouvir eleitores em uma capital do Sudeste não é o mesmo que ouvir moradores de uma comunidade ribeirinha da Amazônia, de uma cidade do semiárido nordestino, de um município agrícola do Centro-Oeste ou de uma periferia metropolitana.
A opinião política não surge no vazio. Ela é atravessada por fatores como renda, escolaridade, acesso à informação, vínculos comunitários, religião, profissão, mobilidade urbana, presença do Estado e até pela infraestrutura de comunicação disponível.
Essa diversidade representa um dos maiores desafios para os institutos de pesquisa. Uma amostra confiável não precisa ouvir todos os eleitores, mas precisa representar adequadamente a pluralidade do eleitorado brasileiro.
É nesse ponto que entram critérios como sexo, idade, escolaridade, renda, região, porte do município e distribuição geográfica. Quando esses elementos são mal calibrados, determinados grupos podem ser super-representados, enquanto outros acabam sub-representados.
O que as pesquisas revelam sobre o Brasil
Ao comentar a importância das pesquisas para a compreensão da realidade social e territorial do país, Samuel Nunes, mestrando em Geografia pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), destaca que esses levantamentos ajudam a revelar diferenças regionais, redutos políticos e variações de comportamento entre diferentes segmentos da população.
Segundo ele, as pesquisas não servem apenas às campanhas eleitorais, embora sejam ferramentas importantes para candidatos e partidos. Elas também permitem observar como demandas sociais, prioridades políticas e intenções de voto se distribuem pelo território brasileiro.
Essa dimensão ajuda a compreender por que pesquisas nacionais e levantamentos estaduais ou municipais frequentemente produzem retratos distintos. Enquanto uma pesquisa nacional busca captar tendências amplas do eleitorado, estudos locais precisam lidar com dinâmicas muito específicas, envolvendo lideranças regionais, alianças políticas, meios de comunicação locais, organizações religiosas, redes de influência e questões particulares de cada território.
Por essa razão, o mesmo eleitorado pode se comportar de maneira diferente em eleições presidenciais, estaduais ou municipais.
Quando a metodologia encontra o território
Para Nunes, compreender o território também é fundamental para definir a forma de coleta dos dados. Em um país marcado por desigualdades de renda, escolaridade, infraestrutura e acesso à internet, a metodologia influencia diretamente quem consegue ser alcançado por uma pesquisa.
Em regiões mais isoladas ou com menor conectividade, por exemplo, entrevistas presenciais podem ser necessárias para garantir maior representatividade. A escolha metodológica, portanto, não ocorre em abstrato. Ela precisa dialogar com as características concretas da população que se pretende estudar.
Outro aspecto relevante é que o comportamento eleitoral brasileiro está longe de ser homogêneo. Existem regiões em que determinados partidos possuem presença histórica mais consolidada, grupos sociais em que certas pautas exercem maior influência e localidades nas quais a figura pessoal do candidato pesa mais do que identificações ideológicas.
Por isso, uma pesquisa de qualidade não se limita a calcular percentuais nacionais. Ela precisa considerar a composição da amostra, a distribuição regional dos entrevistados e os critérios utilizados para ponderar os dados.
A confiabilidade, nesse sentido, não reside apenas no resultado apresentado, mas em todo o processo que o produz. Pesquisas que informam de maneira transparente sua amostra, o período de coleta, a margem de erro, o nível de confiança, o contratante e a metodologia empregada oferecem ao público condições mais sólidas para avaliar seus resultados.
Em contrapartida, levantamentos divulgados com pouca informação técnica ou apresentados de forma sensacionalista dificultam a compreensão dos dados e alimentam dúvidas sobre sua credibilidade.
Os métodos mais utilizados
Segundo Samuel Nunes, as pesquisas eleitorais realizadas no Brasil recorrem, em geral, a três principais modalidades de coleta de dados: presencial, telefônica e online. Cada uma possui características próprias, com vantagens, limitações e desafios metodológicos específicos. O equívoco mais comum é supor que uma delas seja, por definição, superior às demais.
Para o pesquisador, a qualidade de um levantamento não é determinada apenas pelo canal utilizado para entrevistar os participantes. Ela depende, sobretudo, da consistência do desenho metodológico, da adequação da amostra, dos critérios de ponderação adotados e do rigor empregado em todas as etapas da pesquisa.
Em outras palavras, a confiabilidade está menos associada ao método de coleta em si do que à forma como ele é planejado e executado.
A força e os limites das entrevistas presenciais
As pesquisas presenciais são historicamente associadas à ideia de maior robustez metodológica. Nesse modelo, entrevistadores vão a campo e abordam eleitores diretamente, em domicílios ou pontos de fluxo previamente definidos.
A principal vantagem é a capacidade de alcançar pessoas que dificilmente seriam encontradas por telefone ou internet, além de permitir maior controle sobre aspectos da coleta, como localização, perfil do entrevistado e cumprimento das cotas amostrais.
Em um país marcado por desigualdades de renda, infraestrutura e conectividade, essa presença física pode representar uma vantagem importante. Por outro lado, o método também apresenta limitações. Os custos são mais elevados, a logística é mais complexa e o tempo necessário para a realização da pesquisa costuma ser maior.
Outro desafio é o chamado viés de desejabilidade social. Em determinados temas, a presença do entrevistador pode influenciar as respostas, levando algumas pessoas a declarar aquilo que consideram socialmente mais aceitável, e não necessariamente aquilo que pensam ou pretendem fazer.
O avanço das pesquisas digitais
Essa discussão ganha destaque no debate sobre as metodologias digitais. Alguns defensores das pesquisas online, entre eles Andrei Roman, CEO do Instituto AtlasIntel, argumentam que a ausência de um entrevistador reduz constrangimentos e favorece respostas mais espontâneas.
A hipótese encontra respaldo parcial na literatura especializada e também é reconhecida por Marcelo Gaudio. Segundo ele, a presença física de um entrevistador pode influenciar respostas em determinados contextos. Isso, porém, não torna automaticamente os métodos digitais superiores.
O principal desafio das pesquisas online continua sendo a representatividade da amostra. Como ressalta Gaudio, nem todos os grupos sociais utilizam a internet da mesma maneira. Diferenças de renda, idade, escolaridade e acesso à tecnologia podem introduzir distorções relevantes caso não sejam adequadamente corrigidas.
As pesquisas telefônicas ocupam uma posição intermediária entre os dois modelos. Mais rápidas e menos custosas que as presenciais, permitem alcançar entrevistados em diferentes regiões do país. Ao mesmo tempo, enfrentam dificuldades crescentes, como chamadas recusadas, bloqueadores automáticos, desconfiança dos participantes e taxas de resposta cada vez menores.
As pesquisas online, por sua vez, ganharam espaço especialmente após a pandemia. A possibilidade de coletar informações rapidamente, reduzir custos operacionais e alcançar grandes contingentes de entrevistados tornou esse modelo particularmente atraente para muitos institutos.
Ainda assim, a agilidade operacional não elimina a necessidade de rigor metodológico. Sem mecanismos consistentes de amostragem, validação e ponderação, o levantamento corre o risco de retratar apenas segmentos mais conectados da população, e não o conjunto do eleitorado.
A aposta nos modelos híbridos
Ao ser questionado sobre quais metodologias tendem a produzir melhores resultados em um país com as características do Brasil, Nunes defendeu a combinação de diferentes estratégias de coleta.
Na avaliação do pesquisador, as desigualdades regionais e socioeconômicas tornam mais adequado o uso de modelos capazes de alcançar públicos distintos e construir amostras mais representativas. Essa percepção acompanha uma tendência crescente no setor: a adoção de métodos híbridos.
Esses modelos procuram combinar as vantagens das diferentes modalidades de pesquisa. Entrevistas presenciais podem ser utilizadas em áreas de menor conectividade, contatos telefônicos em determinados segmentos populacionais e questionários online entre grupos mais conectados.
O objetivo é ampliar a cobertura, reduzir distorções e equilibrar representatividade, velocidade e custo.
Ainda assim, a combinação de métodos não garante, por si só, resultados confiáveis. Uma amostra mal desenhada, uma ponderação inadequada ou falhas na execução da coleta continuam comprometendo a qualidade do levantamento.
Essa realidade ajuda a explicar por que rankings absolutos de institutos devem ser interpretados com cautela. Eles podem indicar tendências de desempenho, mas não substituem a análise de cada pesquisa em particular. A confiabilidade não pertence automaticamente ao nome do instituto, embora reputação e histórico sejam relevantes. Ela precisa ser observada em cada levantamento, à luz de seus métodos, seus dados e seu contexto.
Por que pesquisas diferentes mostram resultados diferentes?
À primeira vista, números diferentes apresentados por pesquisas realizadas em períodos próximos podem parecer contraditórios. No entanto, essa divergência, por si só, não indica falha metodológica nem tentativa de manipulação.
Em muitos casos, as diferenças decorrem de escolhas metodológicas legítimas. O período de coleta pode variar, assim como a composição da amostra. Um levantamento pode ser realizado presencialmente, enquanto outro utiliza entrevistas por telefone ou internet. A formulação das perguntas, a ordem em que os nomes dos candidatos são apresentados, os critérios de ponderação e até mesmo a definição da população-alvo também podem influenciar os resultados.
Por essa razão, pesquisas distintas nem sempre produzem estimativas idênticas, mesmo quando são conduzidas com rigor técnico. Como observa Marcelo Gaudio, um dos erros mais frequentes é comparar metodologias diferentes como se fossem equivalentes, ignorando aspectos como margem de erro, intervalo de confiança e características específicas de cada levantamento.
Pesquisa não é previsão
Gaudio também chama atenção para outro equívoco recorrente: interpretar pesquisas eleitorais como previsões do futuro. Na realidade, elas registram as intenções de voto declaradas em um determinado momento.
Entre a realização da coleta e a abertura das urnas, o cenário político pode sofrer mudanças significativas. Debates, escândalos, alianças, desistências de candidaturas, oscilações econômicas, mobilizações religiosas, campanhas negativas e acontecimentos inesperados podem alterar o comportamento do eleitorado e, consequentemente, o resultado final da eleição.
Entender essa diferença é fundamental. Uma pesquisa busca retratar o presente, não antecipar com precisão absoluta tudo o que ocorrerá até o dia da votação.
O papel da imprensa e da opinião pública
A forma como os resultados são divulgados também influencia a percepção pública. Manchetes que destacam apenas movimentos de alta ou queda podem exagerar oscilações que permanecem dentro da margem de erro. Gráficos sem escalas adequadas podem sugerir mudanças mais expressivas do que realmente ocorreram. Comparações entre pesquisas de institutos diferentes podem produzir interpretações artificiais.
Nesse contexto, o jornalismo político enfrenta o desafio de tornar os dados acessíveis sem reduzi-los a uma simples disputa de posições no ranking eleitoral.
Essa lógica da corrida, aliás, tornou-se uma das marcas da cobertura contemporânea. O debate público frequentemente passa a girar em torno de quem lidera a disputa, quem cresceu, quem perdeu espaço e quem parece mais competitivo. Como consequência, propostas, programas de governo e discussões sobre políticas públicas podem perder visibilidade.
Quando as pesquisas influenciam a eleição
Marcelo Gaudio observa que a divulgação intensa de pesquisas pode criar um ambiente semelhante ao das apostas, no qual parte do eleitorado passa a considerar não apenas suas preferências, mas também as chances de vitória dos candidatos. Nesse contexto, alguns eleitores tendem a migrar para candidaturas percebidas como favoritas, fenômeno conhecido como efeito manada ou voto no vencedor.
Samuel Nunes também chama atenção para esse aspecto. Segundo ele, as pesquisas podem influenciar o comportamento de uma parcela dos eleitores, especialmente daqueles que preferem apoiar candidaturas consideradas competitivas. Isso não significa que os levantamentos determinem os resultados eleitorais. Significa, porém, que podem moldar expectativas, influenciar a arrecadação de recursos, reorganizar alianças políticas e alterar a dinâmica das campanhas.
Diante desse cenário, a pergunta mais relevante diante de resultados divergentes não é simplesmente qual pesquisa está “certa”. Mais importante é compreender como cada levantamento foi realizado.
Quem foi entrevistado? Em que período? Por qual meio de contato? Qual foi o tamanho e a composição da amostra? Qual a margem de erro? Quem financiou a pesquisa? Como os dados foram ponderados? O questionário foi registrado?
Longe de tornar o debate mais complexo, essas perguntas ajudam a qualificar a interpretação dos dados e fortalecem a capacidade crítica do público diante das informações que circulam durante o processo eleitoral.
Transparência, leitura crítica e o futuro das pesquisas no Brasil
A confiança nas pesquisas eleitorais brasileiras dependerá, cada vez mais, da convergência entre dois processos complementares: o aperfeiçoamento metodológico dos institutos e a ampliação da capacidade crítica do público para interpretar dados estatísticos.
Não basta que os levantamentos sejam tecnicamente rigorosos se seus resultados forem divulgados de maneira simplificada ou distorcida. Da mesma forma, a desconfiança generalizada pouco contribui para o debate público quando não é acompanhada da compreensão dos conceitos que estruturam uma pesquisa. Erro amostral, margem de erro, intervalo de confiança, divergências metodológicas, vieses de coleta e fraudes são fenómenos distintos, com causas e implicações diferentes.
Em um ambiente marcado pela circulação acelerada de informações, a transparência dos institutos e a leitura crítica dos cidadãos tornam-se elementos inseparáveis. Quanto maior a clareza sobre como os dados são produzidos e interpretados, menor o espaço para equívocos, suspeitas infundadas e narrativas que transformam a estatística em instrumento de disputa política.
Credibilidade em tempos de desconfiança
Os institutos de pesquisa também precisarão se adaptar a um ambiente público cada vez mais exigente. A polarização política intensificou o escrutínio sobre qualquer dado divulgado, enquanto as redes sociais aceleraram a circulação de interpretações simplificadas, distorcidas ou descontextualizadas.
Ao mesmo tempo, a erosão da confiança em instituições tradicionais atingiu diferentes esferas da vida pública, da imprensa às universidades, da Justiça Eleitoral às próprias empresas de pesquisa. Nesse contexto, a transparência deixa de ser apenas uma boa prática metodológica para se tornar uma condição fundamental de credibilidade.
É essa preocupação que aparece na avaliação de Samuel Nunes. Para ele, jornalistas e cidadãos devem observar com atenção aspectos como a metodologia empregada, o tamanho da amostra e o período de realização do levantamento. A multiplicação de pesquisas no debate público exige mais do que a simples reprodução de números: exige capacidade de interpretação. Não se trata de aceitar ou rejeitar resultados de forma automática, mas de compreendê-los em seu contexto.
Afinal, uma pesquisa oferece uma leitura específica de um determinado momento; ela contribui para a compreensão da realidade política, mas não a esgota.
O desafio da incerteza
A sociedade brasileira também enfrenta o desafio de desenvolver uma relação mais madura com a incerteza. Pesquisas de opinião operam no campo das probabilidades, não das certezas absolutas. Em um ambiente político marcado por expectativas intensas, essa característica nem sempre é bem recebida.
O eleitor frequentemente busca antecipar o vencedor, militantes procuram confirmações para suas convicções, candidatos esperam sinais favoráveis e a imprensa busca narrativas capazes de sintetizar disputas complexas.
A estatística, porém, não foi concebida para oferecer garantias. Seu papel é fornecer estimativas, indicar tendências, delimitar margens de incerteza e revelar os limites do que pode ser afirmado com segurança.
Talvez a principal contribuição das pesquisas eleitorais não esteja na capacidade de antecipar resultados, mas na possibilidade de organizar o debate público a partir de evidências. Elas ajudam a identificar mudanças de opinião, níveis de rejeição, prioridades do eleitorado, diferenças regionais, impactos de campanhas e transformações mais amplas no humor social.
Quando produzidas com rigor e interpretadas com cuidado, ampliam a capacidade da democracia de compreender a si mesma. Quando reduzidas a instrumentos de torcida ou lidas sem o devido contexto, podem alimentar desinformação, fortalecer narrativas conspiratórias e distorcer o próprio debate que deveriam esclarecer.
Entre os limites e a relevância
A confiabilidade das pesquisas, portanto, não depende apenas dos institutos que as produzem. Ela também é influenciada pela forma como os dados são utilizados por partidos, interpretados pela imprensa e recebidos pelo público.
Entre a coleta das informações e sua circulação no debate público, existem diversas etapas capazes de alterar a percepção dos resultados. Uma manchete imprecisa pode distorcer conclusões metodologicamente sólidas. Oscilações estatisticamente irrelevantes podem ser apresentadas como mudanças decisivas. Empates técnicos podem ganhar contornos de liderança consolidada. Até mesmo enquetes sem rigor científico podem ser confundidas com pesquisas formais. A responsabilidade, nesse processo, é necessariamente compartilhada.
Ao longo deste percurso, torna-se evidente que a confiabilidade das pesquisas eleitorais brasileiras não é uma qualidade automática nem uma questão de fé. Ela resulta da combinação entre métodos transparentes, amostras bem estruturadas, critérios estatísticos consistentes e divulgação responsável.
Pesquisas não são instrumentos capazes de prever o futuro com exatidão, mas tampouco podem ser descartadas como meras ferramentas de manipulação. São mecanismos técnicos desenvolvidos para medir tendências e percepções em uma realidade social complexa, dinâmica e permanentemente sujeita a transformações.
É justamente essa condição que preserva sua relevância. Em uma democracia marcada pela desinformação, pela polarização e pela disputa permanente de narrativas, abandonar as pesquisas significaria abrir mão de uma das principais ferramentas disponíveis para compreender o comportamento do eleitorado. Seus limites são reais e devem ser reconhecidos. Ainda assim, a alternativa mais responsável não é rejeitá-las, mas compreendê-las melhor.
No fim das contas, a questão central talvez não seja apenas saber se as pesquisas acertam ou erram. Mais importante é compreender se estamos desenvolvendo a capacidade de lê-las à altura da complexidade que elas carregam.
Quanto melhor entendemos seus métodos, alcances e limitações, maior é nossa capacidade de transformar dados em conhecimento e informação em debate democrático qualificado.








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