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A voz, para o dono da voz

por | 12 nov, 2021

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Estava eu vasculhando meus arquivos, quando descobri anotações que havia feito para um pretenso artigo, sobre um debate que assisti em 1999, no Rio de Janeiro, promovido pelo jornal O Globo, dentro da série “Encontros O Globo”. Já que o tema ainda faz sentido, resolvi tirar a poeira das minhas lembranças e abrir o velho baú. Farei isso em duas partes, para não virar textão, como diz a moçada avessa à leitura.

Lembro-me que, ao observar a plateia, me veio à lembrança dos cristãos da era romana. Certamente, em algum momento, eu tenha achado ingenuamente que, por se tratar de um debate cujo tema era “música, a hora da renovação”, estaria então armado o clima ideal para aglutinar nomes de peso da MPB, que prestigiariam e debateriam os assuntos relevantes à classe. Lêdo Ivo engano! Por que eles iriam descer do pedestal e ter uma atitude coletiva? Assim, a plateia, na sua grande maioria, era composta por artistas que estão à margem do mercado, segregados como os cristãos das catacumbas. Não deu outra: confirmei a teoria do espermatozoide. Mas, este é um assunto que rende outro caldo.

Mesa Nada Redonda

Como sempre acontece em debates organizados por entidades alheias ao assunto a ser debatido, a composição da mesa foi estratégica. De um lado, os guerrilheiros (acho que posso usar essa figura de linguagem), representados pelos músicos Muri Costa e Mauro Senize. Do outro, a indústria fonográfica multinacional, na figura do também músico e, à época, diretor artístico da EMI, Torquato Mariano. Aliás, acho que ele foi ao debate só porque ainda tinha a alma de músico. Porém, ao vestir a camisa da companhia, ele ficou sob um enorme telhado de vidro e, claro, foi o alvo perfeito para se atirar não só a primeira, mas todas as outras pedras, naquela noite. Também fazia parte da mesa o produtor, DJ e bobo falante, Memê. Com certeza, ele estava lá credenciado pelo sucesso numérico que conseguiu produzindo discos de artistas como Lulu Santos e Claudinho e Bochecha. Para completar a mesa, nada redonda, os jornalistas Maurício Valadares e Carlos Albuquerque, que, convocados para defender a visão de certo segmento da imprensa, acabaram funcionando como contrapesos centralizadores. Claro que não faltou o performático do debate, o cara que atira para todos os lados, capaz de provocar os momentos mais engraçados. Para esse papel, o compositor pernambucano Otto foi o protótipo perfeito.

Vários foram os temas abordados, cada um merecedor de reflexões mais aprofundadas e soluções específicas. Falou-se sobre as dificuldades de acesso dos novos artistas à mídia e às grandes gravadoras. Falou-se, também, sobre a programação das emissoras de rádio, Tvs e seus respectivos jabás. Foi abordada a questão dos selos independentes e as novas tecnologias, que mudaram o antigo conceito de comercialização da música, tipo: Internet e o MP3.

Famigerado Jabá

Na verdade, tudo o que foi discutido nós já estávamos cansados de saber. Infelizmente, os debates acabam sempre ficando nesse chove e não molha, quando deveriam trazer soluções, perspectivas e sugestões viáveis para os problemas debatidos. Algumas questões, entretanto, ficaram bem claras. Uma delas foi o famigerado jabá! Para quem não é do ramo, jabá é o que as gravadoras (e agora qualquer artista que quiser ter sua música executada nas rádios comerciais) pagam aos programadores e diretores das rádios, para tocarem insistentemente o lixo que eles determinam que você deve ouvir. Memê, que já foi radialista, abriu o jogo e confirmou: “Existe sim o jabá! Hoje está institucionalizado em algumas rádios, que são líderes em audiência”. Será que aqui em Alagoas acontece o mesmo? Particularmente, eu estava pensando em fazer o caminho de Santiago de Compostela, para descobrir a verdade. Todo mundo que vai, diz que descobre. Porém, depois daquele debate, não preciso mais. Heureca! O jabá existe!

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

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