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Bálsamo Incógnito

por | 10 out, 2026

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Por Mácleim Carneiro 

Ainda sob o impacto dos resultados das eleições gerais no nosso país, onde a escolha popular, sobretudo em Alagoas, foi decepcionante e inconsequente, procuro compreensão traçando um paralelo com a famosa Síndrome de Estocolmo, onde a vítima, apesar do estado psicológico de intimidação, violência ou abuso, imposto pelo agressor, cria simpatia ou até mesmo um laço emocional forte de amizade ou amor, ao invés de repulsa. Do meu ponto de vista, 47,03% dos eleitores brasileiros têm a cara das vítimas da Síndrome de Estocolmo! Criaram um tipo de identificação com os denodos ideológicos e o caráter antidemocrático e fascista da extrema-direita, de modo que entendem a situação em que estão nos metendo, sabem de toda a canalhice desse campo político e, mesmo assim, partilham dos sentimentos do agressor e tornam-se cúmplices. Com o Congresso formatado por essa eleição, mais uma vez, este país estará submetido a grandes ameaças, tornando-nos vítimas do engodo bem-urdido por algozes atávicos e raivosos, carnífices da democracia e do povo brasileiro.

Apesar deste espectro gris de momento, estou sendo resgatado da decepção e tristeza, por um bálsamo em forma de música:  o novo álbum da banda Eek, que estava adormecido em HDs virtuais desde 2013, mas que agora chega às plataformas digitais, após 13 anos de sua gravação, “como naqueles roteiros clichês de filmes de ficção científica em que o personagem é acordado acidentalmente depois de ter sido esquecido por décadas numa câmara de criogenia, no porão de um prédio abandonado e cheio de teias de aranhas”. É o que nos revela o release do impactante álbum ‘Incógnito’, o segundo registro fonográfico, em estúdio, da banda de rock alagoana Eek.

Elementos Incisivos

Impressiona não haver resquícios de teias de aranhas nem algo que dê uma cara de passado, mesmo que recente, a este trabalho já atemporal da Eek. São onze faixas, que revelam uma unidade lógica e a sonoridade aglutinadora à percepção de que tudo foi bem pensado e cuidado, para que o resultado final fosse extremamente satisfatório. A título de contextualização, a Eek é uma banda genuinamente alagoana, que surgiu no aquário em 2003, cuja gênese foi pensada por Diogo Braz (voz e guitarra) e Christophe Lima (bateria). Passou por diversas formações até se resolver e se encontrar com a entrada de Wagner Sampaio (voz e guitarra) e Leo Almeida (baixo).  Portanto, como a própria formação indica, as guitarras são elementos incisivos da sonoridade áspera e limpa da banda, alicerçadas pela sólida e coesa base estruturante da bateria e contrabaixo, responsáveis pela dinâmica rítmica e precisa da Eek.

A discografia da banda é composta por três registros fonográficos: ‘Fantasia de Equilibrista’ (2018), ‘Ao Vivo no Teatro Deodoro’ (2021) e o nosso álbum em questão, ‘Incógnito’, lançado em setembro deste ano. Dentre as coisas positivas da banda Eek, está o fato de não abrir mão de suas criações próprias e, nos palcos, apresentá-las ao público que lhe acompanha em mais de 20 anos de sua existência. Ainda de acordo com o release que recebi, “a Eek não descuida do seu principal objetivo: apresentar sua música ao público, sem a pretensão de mudar o mundo, apenas com a intenção de proporcionar um bom momento de conexão com a música.” Eu acredito piamente nisso!

Pulsação Bigorna

Em ‘Incógnito’, essa conexão começa logo na primeira faixa, ‘Bem-vindo Ao Planeta Terra’ (Diogo Braz), com pulsação bigorna, alertando que qualquer dia um asteroide vai cair sobre o seu ombro, numa melodia de influência épica, que tenciona nossa atenção até a entrada da batera e do baixo, para alguns compassos depois tudo ser finalizado abruptamente. Quando damos por si, já estamos na segunda faixa, ‘Desejo Doentio’ (Wagner Sampaio e Diogo Braz), com a força pulsante das guitarras, riffs e convenções estrategicamente pensadas. É uma abertura bastante interessante e até certo ponto inusitada. Sem dúvidas, nos instiga a seguir adiante.

Na sequência, ‘Inevitável’ (Diogo Braz) coloca ainda mais lenha na fogueira, numa levada tipo TGV, que lá na frente desemboca em um blues com o peso de guitarras distorcidas e a gravidade da sexta corda do contrabaixo. Sim, o arranjo é bastante inventivo e criativo! Daí, chegamos à música ‘Incógnito’ (Wagner Sampaio), que dá título ao álbum e demonstra a sintonia entre os seus dois principais compositores, tão necessária à vitalidade, coerência e força do repertório.

Peso Sonoro

‘Noite Longa’, ‘Beijo de Hortelã’ e ‘Rotina #3’, todas autorias do Diogo Braz, dão sequência exibindo riffs potentes, que estabelecem e reafirmam o padrão e o peso sonoro desse trabalho, além de solos de guitarra curtos, inteligentes e eficientes, sem tirar nem por. Nada mais acertado e coerente, posto que a opção da banda pelas guitarras e suas possibilidades diabólicas formatam e dão identidade ao seu som. ‘Paradigma’ (Wagner Sampaio) fortalece essa sequência anterior até chegarmos em ‘Reticências’ (Diogo Braz), que apresenta outra atmosfera, sem o peso das guitarras e os riffs das mãos, num roquezinho de grata memória, à lá os anos 1980 ou algo tipo Tremendão. Como se não bastasse essa guinada, ainda tem um pequeno interlúdio, onde eu poderia supor ser uma licença poética em bossa-roll. Sim, não poderia faltar um solinho de guitarra purinha, só na quentura do amp. Na antessala do final da audição, acontece ‘Mais Uma Vez’ (Wagner Sampaio), que não foge muito da sonoridade anterior, mas acrescenta uma pitadinha a mais de guitarra.

A nossa prazerosa audição finaliza de maneira interrogativa, com a suavidade de um violão folk e intervenções de uma guitarra dolente, para a intensa balada ‘Pés no Chão’ (Diogo Braz) e suas perguntas sugestivas: “Quem vai sonhar com o que viu na televisão? Quem vai decifrar o sentido dessa canção?” Tudo adornado pelo sampler do começo e do final, cujo som das ruas e seus vendedores ambulantes trazem uma certa nostalgia à despedida.  E, sim, é muito mais interessante escutar ‘Incógnito’ agora do que no tempo em que foi feito, porque, como bem esclarece o release, “a Eek propõe o instigante exercício de escutar o álbum como uma novidade e como um viajante do tempo, ou como algo que não pode ser determinado no momento, como guarda o próprio significado da palavra Incógnito.”

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

Pulo do Gato: “Acho que o som está mais pesado, com mais destaque para as guitarras.” (Diogo Braz)

Ouça aqui: https://music.youtube.com/watch?v=zc_VbEcM6g8&list=OLAK5uy_kuarKloVVxahjt6SBrqsLpmawNgwIbFfI

 

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