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Hermeto Pascoal: o canto dos pássaros levado aos palcos do mundo

por | 14 set, 2025

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Da esquerda para a direita: Del Yrerê, Hermeto e Majella| Acervo pessoal

Por Geraldo de Majella*

Guardo na memória uma noite de verão em Maceió, talvez em 1999, na casa do professor Luiz Sávio de Almeida. Fomos surpreendidos pela visita de Hermeto, trazido pelo músico baiano Del Yrerê e pelo jornalista Maurício Gonçalves

A conversa não foi sobre música, parcerias ou shows. Foi sobre Alagoas, Lagoa da Canoa, sua cidade natal, e a feira de Arapiraca. Em mais de quatro horas de prosa, Hermeto falava de sua infância pobre, sem jamais transformar isso em amargura ou tristeza. Falava do açude, dos pássaros e dos cuidados empíricos da mãe com o sol, por ele ser albino. Nem uma palavra sobre suas parcerias com artistas internacionais — seu chão era o Agreste alagoano, de terra batida e vida simples.

Aclamado nos palcos dos sete continentes e dos sete mares, Hermeto Pascoal deixou claro que ele saiu de Lagoa da Canoa, mas Lagoa da Canoa nunca saiu de dentro dele. Sua música é universal justamente porque tem raízes profundas no lugar onde nasceu.

Aquela noite de verão foi para mim uma celebração: privei por horas da sua sabedoria extraída do mundo simples e rural, onde os pássaros foram seus primeiros admiradores e plateia, desde os sete anos, quando passou a tocar para eles com uma flauta feita do talo da mamona.

Hermeto Pascoal é um gênio. Não sou eu quem afirma: músicos no Brasil e no mundo o reconhecem como tal. “Eu sou 100% intuitivo”, declarou inúmeras vezes, explicando que fazia música a partir de tudo o que estivesse ao seu alcance: chaleiras, copos com água ou até mesmo animais, como o porco que levou ao palco, cujo grunhido se transformava em notas musicais em dueto com ele.

O Bruxo de Lagoa da Canoa provou ao mundo que é possível fazer música com qualquer ser ou objeto da natureza. E não foi excentricidade para redes sociais — sua genialidade antecede tudo isso. Já na década de 1960, nos Estados Unidos, Hermeto encantava plateias e continuou, por toda a carreira, a deixar perplexos gigantes da música mundial. Sua diferença estava justamente naquilo que parecia impossível: criar música com o inesperado. Mesmo diante de mestres como Miles Davis, Hermeto era o que os outros, mesmo brilhantes, não ousavam ser: absolutamente original.

Ao longo da carreira, Hermeto foi três vezes vencedor do Grammy Latino. Aos 89 anos, fez sua passagem, deixando também estas palavras, que agora ecoam como testamento de vida e música:

Este canto vem de longe,

A distância não sei dizer,

Salve, salve a toda a gente,

Que vive e deixa viver,

Aqui vai o nosso abraço,

Com o som e o saber,

Tirando de nossas mentes,

As palavras pra dizer,

A música segura o mundo,

Enquanto a gente viver,

É a maior fonte sem fim,

De alegria e prazer,

Toquem, cantem, minha gente,

Até o dia amanhecer.

Hermeto Pascoal deixa um legado que será ouvido e celebrado nos quatro cantos do mundo, lembrando a todos que a grandeza da música nasce das raízes mais simples.

*Historiador e jornalista

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