Ouvi a expressão ‘um mais um é sempre mais que dois’, pela primeira vez, na canção ‘Sal da Terra’, que está no álbum ‘Contos da Lua Vaga’, lançado em 1981 pelo Beto Guedes. Portanto, lá se vão mais de 40 anos que concordo plenamente com essa frase acertada, sobretudo, porque alguns artistas brasileiros, como é o caso do Fred Martins e do Marcos Suzano, ao dualizarem seus talentos em musicalidade, ratificam com sobra a assertiva do mineiro de Montes Claros.
Aliás, Marcos Suzano tem histórico e know how em protagonizar álbuns duo, com artistas que dominam seu instrumento de ofício. Acho até que ele tem olho clínico para tal, pois não é à toa que o álbum ‘Olho de Peixe’, Lenine e Marcos Suzano, lançado em 1993, é um belíssimo exemplo do amálgama entre elementos e signos da percussão brasileira com o violão, um instrumento rico em harmonias e também percussivo. Seguindo essa trilha exitosa, o álbum ‘Barbarizando Geral’, Fred Martins e Marcos Suzano, lançado pela Biscoito Fino, já nasceu antológico e jamais envelhecerá.
Violão da Pesada
Antes de tecer comentários específicos sobre este belíssimo trabalho, nada melhor do que colher e trazer depoimentos dos protagonistas: Fred Martins declarou que este álbum foi inspirado nas “catástrofes civilizatórias que a gente está vivendo intensamente, que foram ficando claras e mais nítidas, não só no Brasil, mas no mundo inteiro”. Quanto ao conceito sonoro do álbum, ele afirmou: “Eu quis usar um violão dos anos 1960, que é um violão que identifica a música brasileira, que o João Gilberto usou, que o Baden usou, que muita gente usou e que é essa sonoridade clássica e frágil da bossa e da MPB. Esse violão que se adapta à percussão, porque ele tem pouco médio. Eu quis trazer essa ideia de uma certa tradição formada a partir da bossa, que se junta e se casa com esses sons raros que o Suzano traz, que cria um mundo amoroso com a tradição, mas também vendo as coisas de hoje”.
Por sua vez, Marcos Suzano corrobora a fala do Fred e acrescenta: “Principalmente, quando é um violão bem tocado. Para mim, é fácil. A única questão que se apresenta é procurar uma sonoridade que não seja datada, tão tradicional, mas que tenha um toquezinho. Eu dei sorte, porque o Fred toca um violão da pesada”. Pegando o fio da meada, Fred Martins arremata: “Os mais jovens não estão tendo acesso a essa inteligência acumulada do tempo, e o tempo é o senhor das coisas e dos saberes. Na música não é diferente! Eu me tornei mais brasileiro quando saí do Brasil. A gente tem uma coisa que identifica o Brasil, para nós e para o mundo, que é a música popular. É muito forte! É um pouco um dever manter essa chama acesa”.
Guernica Escatológica
Esclarecidas causas e efeitos, ‘Barbarizando Geral’ é a prova inequívoca de que Fred Martins, desde o álbum ‘Guanabara’ e depois o belíssimo ‘Ultramarino’, vem depurando sua música e se autodepurando, como se fora um vinho alentejano ou da Rioja, latitudes nas quais ele e sua música têm encontrado abrigo, desde que em 2010 cruzaram a ponte Rio-Niterói e deixaram o Brasil, rumo à Europa. Desde então, Fred Martins tem produzido uma música extremamente contemporânea, sem a necessidade de ser rotulada.
Como diria o cartunista romeno Saul Steinberg, ”a arte precede a técnica, assim como o cheiro precede a torta”. Portanto, impregnado dessa lógica, está o álbum ‘Barbarizando Geral’, que em dez faixas revela o quanto o que lhe precede está implícito ao presente e inexoravelmente ao futuro. A começar pela capa, com desenhos do próprio Fred Martins, uma espécie de Guernica escatológica e monocromática, onde, certamente, a arte precede à técnica. Além disso, as letras das canções são crônicas críticas e bem-humoradas, porém, certeiras e diretas ao cerne das questões políticas e sociais, que tecem e revelam a cena contemporânea do Brasil e alhures.
Escrachada Ironia
A faixa que abre os trabalhos e o titula, ‘Barbarizando Geral’ (Fred Martins), é a mesma na qual Fred Martins chama para si toda a responsabilidade do samba e sua fala, a começar pela introdução do violão limpíssimo e muito bem executado pelo compositor. Ele, de cara, avisa: “Com tanta gente crente / Que cretinamente é contra o diferente / Os velhos ratos do mercado vão seguir barbarizando geral.” Em seguida, o introspectivo bandoneón de Marin Sued, em ‘Além do Qualquer’ (F. M. e Manoel Gomes), logo na introdução, mostra-nos que não se trata de um samba qualquer! Daí a percussão de Suzano resolve muitíssimo bem, em prol dessa compreensão.
Em ‘Senzala’ (F.M. e André Sampaio), os timbres dos teclados de Sacha Ambak tencionam ainda mais as impossibilidades geradas pelo sofrimento e covardia das taras brancas, e o banzo dos atabaques da introdução nos alerta para um dos mais belos momentos desse trabalho, em polirritmia, melodia e emoção! Na sequência, como para amenizar a dor, a fina e escrachada ironia acontece no samba ‘Ahmed’ (F.M. e Roberto Bozzetti), que tem a participação especialíssima do MPB4, escolhidos a dedo, para ilustrar a letra inteligente e bem construída, onde, sonora e tacitamente, ratifica toda a importância histórica do grupo vocal para as canções buarquianas. ‘Dois Chicos’ (F.M. e Roberto Bozzetti) dá prosseguimento à parceria, ao samba e ao tema anterior: Chico Buarque de Holanda.
Crônica De Uma Época
Nada como uma debochada marcha-rancho, para pôr na roda ‘Aquele demônio / De nome Messias’. Assim é ‘O Rancho da Seita Suicida’ (F.M. e Marcelo Diniz), que, sem subterfugio, aponta o dedo para o rei nu: Um bloco macabro suicida / Desfila na rua / Na epidemia / Na frente vai o genocida. Ressalte-se o auxílio luxuoso de um aprazível cânone, no belo timbre e participação especial da cantora brasileira, radicada em Lisboa, Nani Medeiros. Sim, a música compromissada com a arte também funciona como retrato e crônica de uma época e circunstância. Assim é o samba lascivo de ‘Madame Maldade’ (F.M. e Roberto Bozzetti), em sua crítica muitíssimo bem-humorada, sobre a soberba e preconceitos de uma classe dominante, que foi escancarada nos últimos tempos de mitos, rebanhos e o seu legado infame, em verde e amarelo.
‘Abalou’, ‘Este Amor Tem Nome’ e ‘Trama’ são as três últimas pérolas, que finalizam este belíssimo trabalho da maneira que começou. Ou seja, com Fred Martins assinando a plena autoria dos sambas e chamando para si não só a responsabilidade do que nos oferta, mas também todos os aplausos e reverências para mais uma obra imprescindível à credibilidade da música brasileira e à ‘desarrazoada razão’.
No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!
SERVIÇO
Barbarizando Geral, Fred Martins e Marcos Suzano
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