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Cidade invisível: a Belém dos refugiados da floresta na sombra da COP30

por | 8 maio, 2025

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Na segregada Belém , que maltrata as águas e os povos, tecnologias da arquitetura amazônica como palafitas se tornam habitações precárias. Foto: Raimundo Paccó/SUMAÚMA

Vestida de princesa azul, a pequena Abayomi brinca entre barracos de lona e madeira na ocupação Liberdade, em Belém. Com apenas cinco anos, ela vive em um dos cenários mais contraditórios do Brasil atual: enquanto a cidade se prepara para sediar a COP30, maior conferência do clima do planeta, 3 mil famílias como a de Abayomi enfrentam o risco iminente de despejo. O retrato dessa Belém esquecida foi traçado em detalhes pelo portal Sumaúma, revelando os bastidores de uma cidade que vive duas realidades.

Mais da metade da população da região metropolitana de Belém – cerca de 1,1 milhão de pessoas – vive em favelas ou áreas com infraestrutura precária. O Censo 2022 identificou 214 favelas na capital paraense, concentradas em territórios historicamente ocupados por indígenas, negros, ribeirinhos e refugiados da floresta. Segundo a Fundação João Pinheiro, mais de 600 mil domicílios da região são considerados “inadequados”. Em muitos deles, falta saneamento, sobra insegurança fundiária e todos os cômodos viram dormitório.

O contraste é gritante: enquanto se constroem hotéis-boutique e a Vila COP30 com recursos públicos e parcerias internacionais, como os 224 milhões de reais da Itaipu Binacional, não há uma única política pública sólida para transformar os 125 mil imóveis vazios da região em moradia popular. O déficit habitacional na Grande Belém é de quase 84 mil casas – número que poderia ser resolvido, ao menos em parte, com uma política de reaproveitamento dos imóveis ociosos. Até agora, nada foi feito.

Na prática, o que se vê é o oposto. A COP30 acelera obras de urbanização que resultam em remoções. A rapper e educadora Shaira Mana Josy viu sua família ser despejada durante a pandemia, no processo de macrodrenagem da Bacia do Tucunduba. O valor da indenização “mal deu para comprar um barraco”, como ela resume em versos. Novas intervenções continuam desapropriando famílias, com obras que ignoram o saber local, cimentam os canais e substituem árvores por concreto.

À direita, novo hotel de luxo de rede portuguesa é preparado para a COP30 no centro de Belém. O prédio foi cedido pelo Estado. Foto: Raimundo Paccó/SUMAÚMA

Além da Vila COP, navios de cruzeiro e prédios públicos foram cedidos a redes internacionais para abrigar chefes de Estado e turistas. Em Belém, há casos de diárias de 93 mil reais no Airbnb. O resultado é que os aluguéis dispararam: Belém teve o segundo maior valor por metro quadrado do país em março de 2025, atrás apenas de São Paulo.

No bairro da Maracangalha, a poucos metros do luxuoso Parque da Cidade, Socorro Bayma não tem acesso a esgoto nem coleta de lixo. Toma banho de chuva quando a água não sobe até o chuveiro. A rua onde vive se chama Passagem Sol Nasce para Todos. Um nome que parece ironizar a realidade.

A professora Ana Cláudia Cardoso, da UFPA, lembra que Belém era, antes da colonização, uma cidade indígena, organizada em torno dos rios. A elite local, no entanto, escolheu copiar o modelo europeu, excluindo a cidade das várzeas, da pesca, da floresta. “Tu tens que ver Belém como duas cidades”, diz ela. De um lado, a Belém branca e turística. Do outro, a cidade negra, indígena, ribeirinha – invisibilizada, embora majoritária.

O risco é que, passado o evento, a cidade volte à rotina sem que nada mude para essas populações. A COP30 pode ser um marco global para o debate climático – mas, para os moradores da ocupação Liberdade, a conferência até agora significa incerteza, despejo e uma Belém que, mais uma vez, promete sem cumprir.

Reprodução

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