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Quem morre na ‘guerra’ da segurança pública

por | 20 abr, 2025

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Foto: Fernando Frazão | Agência Brasil

Por Geraldo de Majella*

No Brasil, a guerra travestida de política de segurança pública mata diariamente — e não apenas os considerados “inimigos” nos territórios populares. Os próprios agentes da lei têm sido alvos de um sistema que os usa, descarta e negligencia. O dado mais estarrecedor dos últimos anos é que o suicídio tornou-se a principal causa de morte entre policiais civis e militares, superando inclusive as mortes em confronto, tanto em serviço quanto fora dele.

Em 2023, a taxa de suicídio entre policiais foi quase oito vezes maior do que a da população em geral, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Foram 118 suicídios registrados no ano, um aumento de 26,2% em relação a 2022, quando 82 policiais tiraram a própria vida. A maioria das vítimas era composta por homens (96%), negros (quase 70%) e com idade entre 35 e 49 anos.

Essa tragédia silenciosa ocorre em paralelo à violência armada oficializada pelo Estado. Em 2023, 6.393 pessoas foram mortas por policiais, uma média de 17 mortos por dia, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Apesar de uma leve redução de 1% em relação ao ano anterior, a letalidade policial permanece altíssima e afeta principalmente jovens negros das periferias.

A guerra, portanto, atinge dois lados: os alvos preferenciais da violência policial e os próprios agentes do Estado, lançados a um cotidiano de estresse crônico, sobrecarga, hierarquia opressiva e ausência de apoio institucional. São vítimas do mesmo sistema que os mobiliza como linha de frente de uma política que privilegia o confronto e marginaliza a prevenção, o cuidado e os direitos.

Reprodução

Outro dado que expõe o abandono dos policiais pelo Estado é o de que a maior parte dos agentes mortos por terceiros não estavam em serviço: 70% das 173 mortes violentas de policiais em 2022 aconteceram durante a folga. Isso revela como a violência extrapola o espaço de trabalho e persegue o agente também como cidadão.

Os números escancaram a necessidade de repensar radicalmente a política de segurança pública no país. O modelo militarizado e repressivo, forjado na lógica do inimigo interno, adoece e mata tanto os que estão dentro das fardas quanto os que vivem nos alvos preferenciais da violência estatal.

A criminalização da pobreza, a impunidade nas ações policiais letais e a negligência com a saúde mental dos próprios agentes são engrenagens de um mesmo sistema de controle social. Um sistema que, como alertam pesquisadores, não tem como objetivo garantir segurança, mas sim perpetuar desigualdades, exclusões e mortes.

A militarização da polícia e a doutrina da guerra às drogas contribuíram para normalizar a lógica do confronto permanente. Os policiais, especialmente os militares, são treinados para ver o território como um campo de batalha, mas, fora dele, continuam desamparados, expostos à violência e ao adoecimento mental. A consequência direta disso é o aumento das mortes — tanto pelas armas, quanto pelo abandono.

É urgente mudar o paradigma bélico e construir uma política pública voltada à proteção da vida — de todas as pessoas. Isso implica repensar o papel das polícias, assegurar estrutura de cuidado psicológico, valorizar o trabalho dos agentes e desmilitarizar o olhar sobre a segurança.

 

Fontes:
– Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024.
– Jornal da USP
– El País Brasil
– Agência Brasil
– Estadão
– Observatório do Terceiro Setor

*Historiador e jornalista 

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