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A Ilusão do Urbanismo Instagramável

por | 10 jul, 2025

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Foto: Secom Maceió

Por Dilson Ferreira*

As eleições de 2024 consolidaram um novo padrão de ação política em diversas cidades brasileiras. Prefeitos e candidatos passaram a utilizar as redes sociais como principal plataforma de comunicação, gestão e autopromoção. Com investimentos significativos em marketing digital, suas administrações passaram a priorizar obras com apelo visual, pensadas mais para a construção de uma imagem pública do que para a resolução estruturante dos problemas urbanos.

Esse fenômeno se apoia em dois eixos centrais, o urbanismo fotogênico e o uso sistemático de gatilhos mentais digitais.

O primeiro é o que denomino de egourbanismo. Trata-se da prática de transformar o território urbano em um conjunto de cenários para exibição em plataformas digitais. Obras como praças com gramado sintético, faixas coloridas, areninhas esportivas, pontos instagramáveis em zonas de alto valor imobiliário e mobiliários urbanos estilizados são implantadas com foco no apelo estético.

A iluminação em LED é amplamente empregada em rotatórias, avenidas e frentes marítimas, produzindo composições visuais que favorecem vídeos noturnos e registros por drones. O projeto urbano é substituído por uma lógica cenográfica e o gestor assume o papel de apresentador de um espetáculo contínuo.

O segundo eixo envolve a aplicação estratégica de gatilhos mentais no ambiente digital. As páginas oficiais e perfis institucionais são moldados para provocar sensações de escassez, exclusividade, urgência e identificação. A figura do gestor é associada a vínculos emocionais, utilizando apelidos e slogans como “meu tio”, “meu prefeito” ou “o amigo do povo”. O contato digital constante, as respostas personalizadas e a criação de rotinas de publicação geram um senso artificial de proximidade e confiança.

Essa lógica tem se mostrado eficaz do ponto de vista eleitoral. A performance digital converte engajamento em votos e transforma imagem em capital político.

Frequentemente, esse tipo de gestão associa o urbanismo cenográfico à realização de grandes eventos. Espaços públicos recebem sucessivos calendários festivos como São João, festas de fim de ano, Páscoa, carnaval e celebrações religiosas. Esses ambientes se tornam palcos para interação simbólica com o eleitorado. Isso resulta em uma anestesia coletiva que mistura entretenimento, obras visuais e marketing político, utilizando recursos públicos para construção de prestígio pessoal.

Além disso, esse modelo produz uma cortina de fumaça institucional. Enquanto os recursos são direcionados para obras de forte impacto visual, os indicadores reais de qualidade urbana seguem estagnados. Gasta-se acima da capacidade fiscal do município ou do estado, muitas vezes sem planejamento de longo prazo. Ao mesmo tempo, a falta de escuta social, a fragilidade na governança ambiental, o desrespeito a instrumentos legais como planos diretores, conselhos municipais e audiências públicas tornam-se práticas recorrentes.

Outro traço característico é a invisibilização das equipes técnicas. A figura do gestor é hipervalorizada e centraliza o mérito de todas as entregas públicas. Profissionais como arquitetos, engenheiros, urbanistas e servidores públicos são excluídos da narrativa institucional. Isso compromete a transparência, desvaloriza o trabalho técnico e rompe a noção de gestão coletiva.

É comum que esses agentes políticos evitem o debate qualificado. Ignoram questionamentos, rejeitam entrevistas abertas e limitam sua atuação a espaços controlados por suas equipes de comunicação. Criam uma cidade editada, onde a performance digital substitui o planejamento urbano e a técnica.

O desafio contemporâneo está em ocupar esse mesmo ambiente digital com outra abordagem. Aquele gestor que compreende o território, reconhece os conflitos urbanos, escuta a população e propõe soluções factíveis pode transformar a comunicação em ferramenta de mediação real e não de encenação.

Superar o egourbanismo é devolver ao urbanismo sua função pública, promover justiça territorial, garantir o direito à cidade e planejar com base técnica, ambiental, social e democrática.

A cidade não é feed. A cidade é chão. E quem vive nela precisa ser sujeito da política, não figurante de um palco digital.

Vamos desmontar o discurso de políticos e influenciadores que tentam transformar a cidade em um ambiente higienizado, controlado e fotogênico, mas vazio de participação, técnica e justiça urbana.

E você, cidadão conectado, pode fazer a diferença. Questione, compare, exija planos reais. A cidade só muda quando quem a vive assume o direito de participar.

*Arquiteto urbanista e professor da Ufal

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