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Maceió, uma cidade que não preserva suas águas (parte 1)

por | 18 nov, 2025

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Foto: Divulgação

Ao ver o governo do Estado anunciar a obra chamada Duplicação da AL-101 Norte, com investimento de R$ 412 milhões em 30 km, ligando o bairro da Garça Torta ao município de Barra de Santo Antônio, decidi refletir sobre nossa água.

A região da nova AL-101 Norte concentra os principais mananciais superficiais de água e a principal área de absorção dos lençóis freáticos, com vales e grotas que ainda cumprem sua função de recarga desses aquíferos. É também onde permanecem remanescentes importantes de Mata Atlântica. Ao mesmo tempo, representantes do mercado imobiliário pressionam órgãos públicos e prefeitura para liberar a expansão urbana nessa área.

Grande parte da população de Maceió não sabe que a água que chega às torneiras não vem de grandes rios, nem de barragens ou reservatórios expressivos. Ela vem quase totalmente debaixo da terra, de lençóis subterrâneos. A capital está assentada sobre o sistema de aquíferos Barreiras–Marituba, que funciona como uma caixa-d’água natural de grande porte.

Ao estudar como esses aquíferos funcionam, onde se localizam, por que são vulneráveis e por que Maceió vive um dos quadros mais delicados de segurança hídrica entre as capitais brasileiras, decidi lançar esta discussão.

1. De onde vem a maior parte da água que abastece Maceió?

A água vem, principalmente, de poços profundos, além de parte do sistema superficial Catolé-Cardoso e do sistema Pratagy. Estudos da ANA, da CPRM e da UFAL mostram que o abastecimento depende majoritariamente da água subterrânea extraída do sistema Barreiras–Marituba.

Segundo o cadastro de poços da SEMARH e da CPRM, a Região Metropolitana de Maceió possui cerca de dois mil poços cadastrados, públicos, privados, condominiais e industriais. Muitos poços não estão regularizados ou nem sequer registrados. Isso impede conhecer com precisão o nível real de extração.

A extração anual estimada supera a recarga natural, o que significa que se retira mais água do que a natureza consegue repor. Com obras de infraestrutura e expansão urbana sem critérios, o problema se agrava.

2. O que é o Aquífero Barreiras–Marituba?

Imagine uma esponja gigante enterrada sob Maceió. Essa esponja acumula a água da chuva que infiltra lentamente no solo, sobretudo nos vales e grotas da cidade. Esse reservatório subterrâneo abastece Maceió com água limpa. Na região alta, a água é mais pura, o que explica a presença de empresas de envase. Na parte baixa, o aquífero já sofre mistura com água salgada, conhecida como cunha salina.

Esse reservatório não é infinito. Ele precisa ser recarregado pela chuva todos os anos. Se isso não ocorre, o aquífero rebaixa, se esvazia e pode se deteriorar. A solução é preservar as áreas de infiltração, sem permitir que infraestrutura ou empreendimentos urbanos ocupem essa riqueza natural.

O Barreiras é o aquífero superior, mais raso e mais vulnerável. O Marituba é mais profundo, de melhor qualidade e recarga lenta. Ambos são essenciais para o abastecimento da capital.

3. Quanto os aquíferos recarregam e quanto Maceió retira?

Estudos hidrogeológicos indicam recarga entre 300 e 450 mm/ano nas áreas naturais de tabuleiro. Em áreas urbanas, a recarga pode chegar a 590 mm/ano, segundo modelagens da Agência Nacional de Águas. No entanto, essa recarga vem diminuindo por causa da urbanização intensa e sem planejamento.

4. Extração total estimada

Trabalhos apresentados à IWRA mostram que, somente em Maceió, o déficit entre extração e recarga chega a cem milhões de metros cúbicos por ano. A cidade usa mais água do que o sistema consegue repor.

5. Onde estão as áreas de recarga e por que são importantes?

As áreas de recarga são as portas de entrada da água da chuva para o subsolo. Em Maceió, as zonas mais críticas estão no norte da cidade: Guaxuma, Riacho Doce, Garça Torta, Ipioca, Tabuleiro dos Martins, Serraria e Cidade Universitária, além da região metropolitana ao norte. Também são áreas relevantes as encostas que fazem a transição entre a parte alta e a parte baixa.

Estudos da UFAL apontam essas regiões como áreas de alta ou muito alta vulnerabilidade hidrogeológica. Apesar disso, prevalecem soluções urbanas que aumentam o problema. Muitas encostas estão sendo concretadas, o que impermeabiliza áreas fundamentais para a infiltração. Não há programas de recomposição ou reflorestamento dessas encostas.

Essas áreas vêm sendo ocupadas por condomínios, loteamentos, resorts, hotéis e novas avenidas, como a duplicação da AL-101 Norte, que corta a principal zona de recarga natural da cidade. O impacto é direto: menor infiltração, maior escoamento superficial, recarga reduzida, alagamentos e enchentes, com a água sendo lançada ao mar ou à lagoa.

O correto seria um planejamento ambiental rigoroso que preservasse essas áreas, equilibrando desenvolvimento urbano e proteção dos recursos hídricos. Falta análise ambiental e urbana, e sobra rodoviarismo com visão equivocada de desenvolvimento.

6. Contaminação por nitrato no solo de Maceió

A qualidade da água subterrânea também está se deteriorando. Pesquisas da UFAL mostram níveis preocupantes de nitrato, contaminante típico de esgoto. Em um estudo com 165 amostras, apenas 52,12% estavam dentro do limite. Outro estudo encontrou quase 33% dos poços com nitrato ou amônia acima do padrão. Valores elevados foram detectados no Farol, Jacintinho, Ponta da Terra, Tabuleiro, Pescaria e outros bairros.

Isso exige atenção das autoridades, pois, se os lençóis atingirem níveis altos de contaminação, haverá risco de saúde pública. Recomenda-se monitoramento constante dos poços e ampliação da rede de esgotamento sanitário. O nitrato se desloca facilmente pelo solo e permanece por anos. A contaminação ocorre quando a água da chuva infiltra e carrega esgoto não tratado das fossas e da baixa cobertura de esgoto.

7. Vulnerabilidade extrema

Mapas de vulnerabilidade mostram que grande parte da cidade está em condição de alta ou muito alta vulnerabilidade. A contaminação já alcança zonas de recarga e zonas onde há exploração ativa. A expansão urbana ocorre exatamente onde não deveria.

Maceió enfrenta três problemas combinados:

• superexploração, com retirada maior que a reposição;

• perda de recarga, devido à urbanização e impermeabilização incentivada pelo poder público;

• contaminação crescente por esgoto.

A cidade possui milhares de poços em operação, um aquífero vulnerável e ocupação intensa nas zonas de recarga. Além disso, não há fonte alternativa robusta de abastecimento. Não existem grandes reservatórios superficiais e o sistema de gestão da água é frágil.

Maceió cresce sem controle sobre uma zona de risco hídrico estrutural.

8. Conclusão

A duplicação da AL-101 Norte tende a estimular urbanização e desmatamento em uma área que deveria ser preservada para garantir água no futuro. A rodovia poderia existir sem permitir exploração imobiliária em suas bordas, como ocorre em outras regiões do Brasil. Falta planejamento ambiental integrado às demais áreas da gestão pública.

Se os aquíferos forem rebaixados, Maceió corre risco real de desabastecimento.

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