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Mobilidade urbana: Maceió e o caos das paradas de ônibus

por | 30 ago, 2025

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Foto: Divulgação

Por Dilson Ferreira*

Escrevo este artigo como um urbanista indignado ao ver direitos tão básicos serem negados ao maceioense. O direito a um abrigo seguro em uma parada de ônibus.

Maceió tem 2.443 pontos de ônibus segundo a plataforma Moovit (2025). Em 2017 eram 2.419 segundo o Moovit. Em oito anos apenas 24 novos pontos foram implantados. Mais de 700 pontos não possuem abrigo segundo reportagens locais.

Grande parte dessa rede existente foi implantada entre 1993 e 1996 na gestão de Ronaldo Lessa. Foram construídos abrigos de concreto que ainda resistem nos bairros. Desde então não houve plano contínuo de manutenção, modernização ou expansão para toda cidade. O resultado é uma rede envelhecida e desigual na maior parte de Maceió.

Maceió possui mais de 2.419 pontos de ônibus com centenas sem abrigo e alguns sem identificação, sendo comum encontrar placas no poste em vez de um abrigo. Onde estão o IPLAN, a DMTT e a SEMINFRA? Esses órgãos têm a função de planejar, fiscalizar e executar melhorias. Estou falando do básico para o maceioense: sombra, acessibilidade, iluminação e segurança.

Sem abrigos crianças, idosos e mulheres se expõem diariamente à chuva, ao sol, ao escuro e à insegurança. O usuário perde dignidade. O sistema perde eficiência na entrada. A cidade perde cidadania na mobilidade. A cidade não se resume à orla nem à frente de shoppings e hotéis.

Não existem dados públicos oficiais sobre as paradas de Maceió, se existem onde estão?. Este levantamento para este artigo foi feito com informações do Moovit e de reportagens da mídia local. Isso confirma um apagão de dados urbanos. A cidade não conhece sua própria infraestrutura e não oferece transparência mínima à população. Nenhum órgão público cobra. Onde estão nossos vereadores?

O Artigo 85 do atual Plano Diretor de Maceió exige infraestrutura de transporte com funcionalidade, conforto, acessibilidade e segurança. A realidade é oposta. Pontos seguem sem sombra, sem iluminação e sem acessibilidade. O descaso é evidente em áreas de maior circulação popular como a Rua do Comércio e o Mercado Público onde milhares esperam ônibus em condições indignas.

Na parte alta de Maceió a situação é ainda mais grave. Ali vive quase 40% da população segundo o Censo de 2022. É também a região onde se concentram milhares de empresas de comércio e serviços. A Cidade Universitária possui 12.416 empresas registradas, bem como a Universidade Federal de Alagoas e distrito industrial. Já o Tabuleiro do Martins possui 9.878 empresas segundo a Juceal (2024). Essa região não é apenas dormitório. Ela gera renda, emprego e movimenta a economia da cidade. Mesmo assim o transporte público permanece abandonado e os pontos continuam sem abrigo, sem iluminação e sem segurança, principalmente para as mulheres.

As poucas melhorias em paradas ficam concentradas na orla em frente a shoppings e hotéis ou perto de praças revitalizadas. No restante da cidade prevalece o abandono, salvo uma ou outra exceção.

Enquanto isso Recife avançou com um plano estruturado de 3.650 abrigos em seis anos. Já foram entregues 550 com cobertura eficiente, bancos, iluminação em LED e painéis informativos. É a diferença entre uma cidade que planeja e outra que improvisa ou esquece sua população no que é mais básico, o direito de ir e vir com dignidade.

Tenho apontado esses problemas desde 2021 quando apresentei propostas para recuperar e padronizar os pontos de ônibus de Maceió. Não se trata de inovação futurista. Trata-se do básico para o maceioense.

Maceió só poderá falar sério de mobilidade quando reconhecer que o ponto de ônibus é a porta de entrada do transporte coletivo. Se ele não funciona o sistema inteiro inicia falhando. E em Maceió ele não funciona. Vivemos um caos no planejamento do nosso transporte público. Melhorias no transporte não é apenas a melhoria da frota. Melhorar a frota é obrigação, pois as pessoas pagam passagem e a prefeitura paga subsídios.

É hora de um plano de recuperação e padronização das paradas que alcance toda a cidade. Mobilidade se mede também no ponto de ônibus da grota, do bairro popular, da Rua do Comércio, do Mercado e da Cidade Universitária.

Hoje em todos esses lugares o que temos é desafio e abandono, onde crianças, idosos, mulheres, estudantes e trabalhadores estão na chuva, no sol ou na escuridão, ao lado de uma placa pendurada no poste escrito “Ônibus”.

Isso é indigno com o nosso povo!

*Urbanista e professor da FAU/Ufal.

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