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Quando a previdência vira cassino: servidores de Maceió podem perder R$ 168 milhões

por | 21 nov, 2025

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Iprev Maceió | Cortesia

Por Geraldo de Majella*

A Polícia Federal ampliou o alcance de suas investigações e passou a mirar o “andar de cima” — o espaço onde atuam operadores sofisticados, banqueiros, gestores públicos, lobistas e políticos que não se parecem em nada com os soldados do tráfico que matam e morrem nas favelas do Brasil. São estruturas distintas do mesmo ecossistema criminoso.

A PF entrou na Faria Lima — considerada o bunker do mercado financeiro — prendeu banqueiros, operadores e passou a investigar governadores como Cláudio Castro e Ibaneis Rocha, além de senadores como Ciro Nogueira e outros nomes do Centrão. Não é exagero afirmar: o crime organizado, em sua face corporativa, finalmente começou a ser exposto e desmantelado.

É nesse cenário que surge a figura de JHC — representante de uma nova geração da direita brasileira que ascende à política já com patrimônio vultoso e sem trajetória profissional consolidada. Sua estreia no mercado financeiro não ocorreu com recursos próprios, mas com dinheiro público. E foi uma estreia temerária: aplicou R$ 117,9 milhões do fundo de aposentadoria dos servidores municipais em letras financeiras do Banco Master, sem qualquer garantia caso a instituição quebrasse. Foi exatamente o que ocorreu. O Banco Master acabou liquidado pelo Banco Central por envolvimento em lavagem de dinheiro do tráfico de drogas, adulteração de combustíveis e outras práticas criminosas.

Além disso, o Iprev de Maceió realizou outra operação de risco, aplicando R$ 51,48 milhões em cotas de um fundo imobiliário — o Nest Eagle. Somadas, essas aplicações chegam a R$ 168 milhões destinados ao mercado financeiro sem salvaguardas mínimas de proteção ao patrimônio previdenciário dos servidores. Trata-se de um conjunto de decisões que expõe a fragilidade técnica da gestão e aprofunda as dúvidas sobre os critérios utilizados para movimentar recursos tão sensíveis e essenciais ao futuro dos trabalhadores da prefeitura.

Com a descoberta da rede criminosa — e a prisão, nesta fase, dos criminosos de terno bem cortado — instalou-se um ambiente tóxico e de altíssimo risco político. A primeira reação da prefeitura foi uma Nota Oficial do Iprev. O texto, evasivo e frágil, dizia pouco e revelava muito: expunha um prefeito acuado, tentando se dirigir à sociedade por meio de justificativas burocráticas, como se isso bastasse para explicar o inexplicável.

A tentativa de blindagem é evidente. Alegar que os investimentos foram aprovados pelo Conselho de Administração do Iprev não serve de escudo. Não reduz a imprudência nem altera o fato central: tratava-se de dinheiro dos trabalhadores da prefeitura, aplicado sem garantias de segurança. A impressão que fica é a de que o prefeito se prepara para lançar subordinados aos leões — Polícia Federal e Ministério Público — para tentar se desvincular da operação.

Não há marketing capaz de mascarar a gravidade do que veio à tona. Por mais eficiente que tenha sido a comunicação da prefeitura para sustentar a popularidade de JHC, nada disso resiste ao fato de que o Banco Master, agora liquidado, foi identificado pela PF como extensão financeira do PCC.

JHC conseguiu algo inédito na administração pública de Maceió desde 1839, quando a cidade se tornou capital: associar a gestão municipal a uma organização criminosa como o Banco Master, de alcance nacional e internacional. As Operações Carbono Oculto e Compliance podem trazer revelações que surpreenderão a população, mas dificilmente surpreenderão o prefeito. Ele sabe o que fez — e o que autorizou — no carnaval passado.

Não há mais como negar: os R$ 168 milhões estão perdidos.

Resta saber por quanto tempo JHC pretende permanecer em silêncio. As instituições — diferentemente da política de curtidas — têm memória, cobram responsabilidades e não se deixam impressionar por marketing. O prefeito deve explicações claras, diretas e completas à sociedade e, sobretudo, aos servidores que tiveram seu futuro previdenciário lançado no centro de um dos maiores escândalos financeiros recentes do país.

O dinheiro limpo e honesto dos servidores públicos foi misturado ao dinheiro do tráfico de drogas lavado pelo Banco Master. É uma realidade dura, mas impossível de varrer para debaixo do tapete.

*Historiador e jornalista

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