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Tragédia da Braskem: o legado subterrâneo de Maceió

por | 5 jun, 2026

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Por décadas, Maceió vendeu ao mundo a imagem de paraíso tropical. As águas transparentes, o encontro entre o mar e a Lagoa Mundaú e a expansão urbana voltada para o litoral ajudaram a consolidar a capital alagoana como um dos principais destinos turísticos do Nordeste. Desde 2018, porém, outra paisagem passou a ocupar o imaginário da cidade: ruas vazias, imóveis abandonados, bairros inteiros evacuados e uma extensa área transformada em território de monitoramento permanente.

O fenômeno que desencadeou essa mudança foi a subsidência do solo — o afundamento gradual do terreno provocado por movimentações subterrâneas. Em Maceió, o problema foi associado à exploração de sal-gema realizada pela Braskem desde os anos 1970. O minério, matéria-prima para produtos como PVC, detergentes e medicamentos, era extraído em cavidades abertas entre 800 e 1.200 metros de profundidade.

Divulgação

Os primeiros sinais surgiram em forma de rachaduras, tremores e deformações em imóveis. Em pouco tempo, a crise deixou de ser um problema localizado para se tornar um dos maiores desastres socioambientais urbanos já registrados no Brasil.

Mas a imagem de uma cidade inteira afundando nunca correspondeu à realidade técnica do problema.

“Maceió não afundou na sua totalidade”, afirma Fernando Bispo, gerente regional da Agência Nacional de Mineração (ANM) em Alagoas. Ainda assim, os impactos foram suficientes para alterar profundamente a dinâmica urbana da capital.

Quando os tremores começaram, a situação rapidamente mobilizou órgãos públicos, moradores, pesquisadores e o sistema de justiça. A resposta culminou na interdição das atividades minerárias e, em 2019, na confirmação oficial da relação entre a extração de sal-gema e a instabilidade do solo, a partir de estudos conduzidos pelo Serviço Geológico do Brasil.

O encerramento da mineração, no entanto, estava longe de representar o fim do problema.

Divulgação

Na prática, marcou o início de uma etapa ainda mais complexa: fechar uma mina localizada sob uma cidade.

Hoje, a área afetada pela desocupação e demolição alcança aproximadamente 275 hectares. A região operacional das minas ocupa outros 187 hectares, incluindo áreas da laguna. Sob essa superfície existem 35 frentes de lavra que passaram a exigir um processo contínuo de estabilização geotécnica.

O principal trabalho em curso é o preenchimento gradual das cavidades subterrâneas com areia, técnica conhecida como backfilling. A operação busca reduzir vazios internos e aumentar a estabilidade do maciço geológico.

“Algumas cavidades ficam dentro da camada do sal e outras ficam fora. As que ficam fora estão sendo preenchidas com areia e devem terminar em 2027. Depois começa o preenchimento das cavidades que estão na camada do sal”, explica Fábio Perlatti, responsável pela Gerência de Sustentabilidade e Fechamento de Mina da ANM.

O desafio, segundo os técnicos, é quase paradoxal: controlar um ambiente que ninguém consegue ver diretamente.

As cavidades estão localizadas a profundidades equivalentes a três vezes a altura do edifício mais alto de Maceió. Não há acesso físico aos espaços subterrâneos. Tudo depende de tecnologia, modelagem geológica e monitoramento remoto.

“O desafio é que você não acessa a mina. A situação das cavidades é acompanhada por sonares e diversos equipamentos. Acredito que essa seja uma das áreas mais vistoriadas em relação à sismologia no Brasil”, afirma Perlatti.

O que está em operação na capital alagoana se tornou uma espécie de laboratório nacional de monitoramento geotécnico. Sensores sísmicos, piezômetros, sistemas de GPS de alta precisão, interferometria por satélite e modelos geomecânicos acompanham movimentos do terreno em escala milimétrica e praticamente em tempo real.

Mais do que uma operação de engenharia, trata-se de um exercício permanente de vigilância.

As equipes da ANM acompanham os dados enviados pela empresa e realizam inspeções periódicas para verificar o comportamento das cavidades e a eficácia das medidas adotadas. O colapso parcial da chamada mina 18, registrado em 2023 na região da Lagoa Mundaú, reforçou a necessidade de protocolos ainda mais rigorosos.

O caso também impulsionou mudanças na forma como o Brasil enxerga o encerramento de atividades minerárias.

Foto: Ariel Costa/Senado Federal

Durante muito tempo, fechar uma mina foi tratado como a etapa final de um empreendimento. Hoje, a lógica é outra. Com o fortalecimento das exigências regulatórias e a consolidação das regras previstas na Resolução nº 68/2021, o fechamento passou a ser encarado como um processo de longo prazo, que envolve estabilidade geológica, recuperação ambiental, acompanhamento social e planejamento do uso futuro dos territórios afetados.

Em Maceió, essa discussão ganha contornos ainda mais complexos porque envolve uma área urbana consolidada.

O que fazer com um território esvaziado? Como devolver alguma função a bairros marcados pela retirada de milhares de moradores? Quais atividades poderão coexistir com as restrições geotécnicas que permanecerão por décadas?

Igreja Batista do Pinheiro é o único imóvel que não pertence a Braskem no bairro em Maceió | Pedro Stropasolas

As respostas ainda estão em construção.

“Nesse caso específico, a Braskem precisa primeiro estabilizar a área para então indicar quais usos serão possíveis. Pode ser um parque, pode haver restrições de ocupação, pode existir outra destinação. Quando esses estudos estiverem consolidados, a empresa apresenta as possibilidades e a ANM analisa”, explica Fernando Kutchenski, chefe da Divisão de Fechamento de Mina e Uso Futuro da agência.

Enquanto o debate sobre o futuro avança lentamente, o presente continua marcado pelos sinais da transformação. Imóveis vazios, acessos controlados e estruturas sob vigilância constante lembram que o problema permanece ativo, mesmo após o fim da extração mineral.

Divulgação

Mais de cinco anos depois do início da crise, Maceió tornou-se referência nacional em um tema pouco discutido até então: o que acontece depois da mineração.

A resposta não está apenas nas cavernas que precisam ser preenchidas ou nos relatórios técnicos que seguem sendo produzidos. Ela está também na reconstrução de uma cidade que viu parte de seu território desaparecer do mapa urbano e que agora tenta definir qual será o destino de um espaço onde a presença humana deu lugar à incerteza.

Sob as ruas silenciosas dos bairros desocupados, o trabalho continua. E continuará por muitos anos. Porque, em Maceió, fechar uma mina não significa encerrar uma história. Significa aprender a conviver com as consequências dela.

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