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A cumplicidade da grande imprensa com a ditadura militar: caso Folha e Globo

por | 7 maio, 2025

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© Unifesp/Arquivo

Dois exemplos marcantes da aliança entre grandes grupos de mídia e a ditadura militar instaurada em 1964 no Brasil são o Grupo Folha e as Organizações Globo. Ambos se comprometeram umbilicalmente com a conspiração civil-militar que derrubou o governo constitucional do presidente João Goulart em 1º de abril de 1964. O general Castelo Branco, primeiro a assumir a presidência pós-golpe, prometeu devolver o poder aos civis em 1966 — promessa jamais cumprida.

A aliança desses veículos com o regime não foi apenas ideológica. Foi também empresarial. O apoio irrestrito à ditadura garantiu crescimento financeiro expressivo e consolidação como potências da comunicação. No caso da Folha de S.Paulo, os proprietários Otavio Frias e Carlos Caldeira foram além do apoio editorial. Transformaram as redações em extensão dos aparelhos repressivos, contratando delegados, policiais e agentes do DOI-CODI como jornalistas e seguranças. Delegados circulavam livremente nas dependências do jornal. Há relatos de que o mais temido torturador da ditadura, Sérgio Paranhos Fleury, frequentava festas da empresa, sendo tratado como aliado.

A jornalista Rose Nogueira é um símbolo dessa época: presa, torturada e demitida “por justa causa” sob a alegação de abandono de emprego — enquanto estava ilegalmente presa no DOI-CODI.  Delegados chegavam a extorquir famílias de jornalistas presos em troca de promessas de libertação ou de não tortura. Tudo com ciência e silêncio dos donos do jornal.

Roberto Marinho e as Organizações Globo também apoiaram ativamente o golpe e o regime militar. Embora não haja relatos tão explícitos de colaboração repressiva como os da Folha, o grupo admitiu, em editorial publicado já no século XXI, que errou ao apoiar a ditadura. Uma espécie de “meia-culpa” que não foi acompanhada por reparações históricas ou jornalísticas.

Nos anos 1980, com o movimento Diretas Já, a Folha tentou se reposicionar. Passou a defender a redemocratização e atrair jornalistas de diferentes matizes ideológicos, ganhando a imagem de jornal plural e democrático. Em 1984, tornou-se o jornal mais vendido e lido do país.

Reprodução

Essa reinvenção, no entanto, é desmontada pela série documental Folha Corrida, dirigida por Chaim Litewski — o mesmo diretor do premiado Cidadão Boilesen (2009). A produção é fruto de parceria entre o Instituto Conhecimento Liberta (ICL) e a Terra Firme Produções, e será exibida na Plataforma ICL. Com quatro capítulos, o documentário revela documentos e depoimentos inéditos de vítimas, testemunhas e agentes dos órgãos de repressão, como o DEOPS e o DOI-CODI de São Paulo.

A investigação parte da pesquisa “A responsabilidade de empresas por violações de direitos durante a ditadura: o caso Folha de S.Paulo”, e mostra que a Folha não apenas silenciou diante das violações, como contribuiu ativamente com o aparato repressivo, cedendo estrutura e legitimidade jornalística ao regime.

Em editorial publicado anos depois, Otavio Frias Filho chegou a afirmar que o Brasil viveu uma “ditabranda” — expressão que provocou forte reação de setores da sociedade civil, jornalistas e acadêmicos, por tentar minimizar a brutalidade da ditadura.

A série Folha Corrida expõe de forma contundente como setores da imprensa deixaram de ser observadores da história para se tornarem cúmplices dos seus capítulos mais sombrios. E revela que, sem o enfrentamento crítico desse passado, as estruturas de poder — inclusive na mídia — seguem marcadas pela lógica autoritária, elitista e antidemocrática.

 

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