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“Da truculência à defesa seletiva dos direitos humanos”: historiadora analisa contradições da extrema direita

por | 20 set, 2025

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Foto: Agência Brasil

A votação no Congresso Nacional que acelerou a tramitação da proposta de anistia aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro trouxe à tona uma contradição marcante da extrema direita brasileira. Para a historiadora Virgínia Fontes, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), o movimento que durante décadas defendeu o lema “bandido bom é bandido morto” agora reivindica impunidade para seus próprios líderes e apoiadores.

“A extrema direita salta do punitivismo brutal para a defesa de ‘direitos humanos’, direcionados apenas a alguns personagens, como os atuais condenados”, afirma a pesquisadora em entrevista ao Brasil de Fato.

Segundo Fontes, a novidade está na forma como esses grupos se apropriaram de discursos e redes sociais para mobilizar massas populares desiludidas com a política institucional. “Antes, a ação das direitas e das burguesias primava por desmobilizar. Agora, se apoiam em setores militares, policiais, religiosos e empresariais, ampliando sua base com contradições e reviravoltas que passam a ser vistas como naturais”, pontua.

A historiadora Virgínia Fontes | Reprodução

A historiadora ressalta que o julgamento e condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e de militares de alto escalão marcam um divisor de águas. Diferentemente de golpes anteriores, quando os responsáveis foram premiados ou anistiados, desta vez há responsabilização. “É um julgamento histórico e terá papel fundamental doravante. Mas sua força simbólica só se consolidará com engajamento popular contra todos os golpismos”, avalia.

Fontes também analisa o papel das elites políticas e econômicas no processo. Para ela, as classes dominantes oscilaram entre apoiar Bolsonaro, silenciar diante de seus abusos ou adotar uma defesa meramente formal da democracia. O fator externo, com pressões dos Estados Unidos, também pesou. “Há uma intensa imbricação subalterna das burguesias brasileiras com capitais estadunidenses e europeus. Muitos desses grupos escaparam até agora das investigações”, critica.

Outro ponto destacado é a construção de uma polarização fictícia, que esvaziou a contraposição real entre esquerda e direita. Segundo Fontes, partidos foram homogeneizados pelo financiamento burguês e pelo ativismo de aparelhos privados de hegemonia, resultando em um cenário dominado pelas bancadas do “boi, da bala, dos bancos e da bíblia”.

Nesse contexto, a ascensão de discursos religiosos conservadores tem reforçado práticas autoritárias. “Há exportação de técnicas de conversão vindas dos EUA, como as teologias da prosperidade e do domínio, que se somam às estratégias filantrópicas empresariais, deslocando a luta contra opressões do enfrentamento ao capital”, explica.

O clamor por impunidade, avalia, é parte de uma estratégia de inversão política, que transforma golpistas e torturadores em “vítimas” e tenta reverter o sentido da luta por direitos. “Ora, direitos humanos são de todos. Criminosos merecem julgamento. O que tiveram, e com todas as garantias. A manipulação grotesca revela o estágio de descaramento e de pós-verdade que marcam a extrema direita”, diz.

No cenário internacional, Fontes alerta para a ofensiva do ex-presidente Donald Trump e a crise do capitalismo ocidental. Ela destaca que a resistência brasileira, sobretudo com o posicionamento do Supremo Tribunal Federal e a atuação do governo Lula no julgamento, foi inédita. “Mas a ação contra os setores fascistizantes internos segue tímida e muito mais comunicativa do que organizativa”, aponta.

Para a pesquisadora, a saída para o impasse passa pela radicalização popular em defesa de um projeto anticapitalista. “Há uma radicalização necessária, mas em direção coerente e contrária ao fascismo. O abandono da radicalidade anticapitalista abriu espaço para sua falsificação em larga escala. O desafio é retomar esse horizonte, com organização social e formação política permanente”, conclui.

A análise da historiadora indica que o momento brasileiro é tenso, mas também singular. Pela primeira vez, cabeças de um projeto golpista foram condenadas. No entanto, a efetividade dessa vitória dependerá de mobilização contínua contra a extrema direita e contra o enraizamento das desigualdades estruturais. “A população resiste às agressões, mas precisa ser melhor informada, amparada e organizada. Está alerta, e isso já é um ponto de partida”, finaliza.

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