Uma exposição que será aberta nesta sexta-feira (14), em São Paulo, apresenta ao público o trabalho científico realizado para localizar e identificar pessoas desaparecidas durante a ditadura militar brasileira. A mostra “Fazer falar os ossos: engajamentos presentes com o passado” ficará em cartaz até 27 de setembro no Centro MariAntonia, da Universidade de São Paulo (USP).
Em vez de concentrar a narrativa nos restos mortais encontrados em valas clandestinas, a exposição direciona o olhar para a rotina dos profissionais responsáveis pela investigação. Vídeos produzidos desde 2022 acompanham peritos do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), durante a análise de ossos recuperados em processos de exumação.
A proposta é mostrar o caráter técnico e científico de um trabalho que também envolve a busca das famílias por respostas. Os pesquisadores registram procedimentos como a organização dos ossos, medições, descrições e análises dos fragmentos, revelando etapas normalmente restritas aos laboratórios.
A mostra surgiu de um projeto desenvolvido em parceria entre a Unifesp e a Universidade de Basileia, na Suíça, com financiamento da Fapesp e da Swiss National Science Foundation. A pesquisa utiliza métodos da etnometodologia e da análise da conversa para observar como os especialistas constroem conhecimento durante o trabalho forense.
Para os responsáveis pela exposição, a questão ultrapassa a identificação individual dos restos mortais. O processo também expõe a relação entre a violência praticada pelo Estado, o desaparecimento de opositores políticos e a dificuldade enfrentada por familiares que ainda procuram informações sobre seus parentes.
O trabalho do CAAF ganhou importância diante da ausência, no Brasil, de uma política estatal permanente voltada à localização dos desaparecidos políticos. Segundo os pesquisadores citados pela Agência Pública, mais de 200 pessoas são oficialmente reconhecidas como desaparecidas durante a ditadura, mas a identificação dos restos mortais ainda alcançou apenas uma parcela desse grupo.
A exposição também aborda a atuação das famílias na preservação de documentos e evidências sobre as vítimas. Parte desse esforço contribuiu para a criação de estruturas de pesquisa voltadas à antropologia e à arqueologia forense.
Além da identificação de desaparecidos, o CAAF desenvolveu pesquisas sobre a participação de empresas em violações de direitos humanos durante o regime militar. Em parceria com o Ministério Público Federal, pesquisadores investigaram diferentes companhias e documentos relacionados à colaboração empresarial com a repressão.
A programação da exposição inclui ainda sessões de filmes, debates, curso aberto e uma mesa-redonda com familiares de desaparecidos políticos.
A mostra “Fazer falar os ossos” será aberta às 18h desta sexta-feira (14), no Centro MariAntonia da USP, localizado na Rua Maria Antônia, 258, em São Paulo. A visitação será gratuita, de terça-feira a domingo, das 10h às 18h, até 27 de setembro.
*Com Agência Pública






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