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Na linha de frente do combate, médico diz que política e burocracia atrapalham luta contra Covid-19

por | 28 jun, 2020

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Henrique Martins defende união de todos os segmentos em função da vida
Foto: Arquivo pessoal

Na atividade há mais de 20 anos, o médico Henrique dos Santos Marques acredita na superação de todos os problemas decorrentes da pandemia Covid-19, mas avalia que as dificuldades no enfrentamento da doença que já matou 57.174 brasileiros, entre esses mais de mil alagoanos, seriam bem menores sem polarização política.

“A vida não é só a medicina, vida não é só a saúde. A vida é um contexto geral. Mas como o tema hoje é a pandemia, Covid, mortes, salvamentos, enfim, o que seria bom pra todos é que, pelo menos nesses momentos de dor, onde muitas famílias têm sofrido bastante, onde o medo está em cada um de nós, que não houvesse tanta polarização política” – afirmou Marques, que está na linha de frente de combate ao novo coronavírus no Hospital da Mulher, e numa das unidades de saúde do bairro Benedito Bentes, em Maceió.

Natural de Niterói (RJ), o médico, que está a 19 anos em Alagoas, vê a medicina como um sacerdócio, cuja recompensa maior é contribuir com a cura do paciente. Segundo Henrique Marques, essa pandemia tem permitido aos profissionais de saúde emocionar-se com os verdadeiros milagres que a cura das pessoas infectadas pelo coronavírus representa.

Para ele, todo médico estuda, se especializa, se prepara justamente pra vivenciar momentos de cura, de recuperação de seus pacientes. “É de encher o olho de lágrima, é de o coração pulsar 120, 130 por hora, é de faltar o fôlego e do corpo tremer e falar, caramba, eu participei disso. É maravilhoso! Mesmo quando a gente perde 10, mas aquele que tu salva, é compensador, é como se a gente tomasse um choque, mais um choque bom, que traz mais energias pra no dia seguinte, parar e pensar, poxa, eu quero ver essa cena de novo e quero que todos os dias da minha vida eu repita uma cena como essa. Porque, realmente, é emocionante, é muita felicidade por aquele paciente que se salvou” – relata.

Ao se posicionar sobre a luta que os profissionais de saúde enfrentam a mais de três meses para salvar vidas, Henrique Marques diz que o trabalho se torna mais difícil e mais grave também pela falta de insumos.

“Tem ainda a questão burocrática, dos insumos que demoram muito a chegar e ainda não são suficientes. Tanto para o médico como para todos os que precisam ser protegidos. Temos tido muitas baixas, que poderiam ser evitadas se nossos políticos trabalhassem com bondade, não pensando só em desvio, visando lucros e coisas desse tipo. Temos visto pessoas agindo de forma errada, em benefício próprio, diante de algo tão perturbador “ – reclamou o médico, referindo-se às denúncias de corrupção na compra de respiradores, EPIs e outros materiais necessários ao trabalho nos hospitais e postos de atendimento, que marcaram o início da pandemia.

A falta desses equipamentos compromete a vida dos pacientes e também coloca em risco os profissionais de saúde. “Estamos sujeitos a contrair a doença do nosso paciente. E se não temos os insumos necessários, esse risco se torna maior. Todos têm medo! Por nós e por nossas famílias. Isso me deixa apreensivo. Me cuido ao máximo pra evitar que isso ocorra” – revela.

Outra questão que marca os profissionais nessa pandemia é a financeira. Segundo Henrique Marques, os profissionais que não são concursados, os prestadores de serviço, quando são contaminados e ficam em quarentena ou em UTI, não recebem remuneração. Essa é também uma grande dificuldade no enfrentamento ao coronavírus.

“Seria bom que as pessoas deixassem a política de lado e pensassem apenas na vida, nas famílias, nos cidadãos, como todos sendo filho de Deus, como todos nós sendo irmãos diante de Deus, criação de Deus. Que deixássemos um pouco de lado essas vaidades, que ninguém é melhor do que ninguém. Todos são importantes, do pessoal que recolhe o lixo hospitalar ao médico neurologista, neuro-cirurgião, cirurgião cardíaco, mega-intensivista, o técnico de enfermagem, enfermeiro, fisioterapeuta, que tem sido pessoa tão importante nessa luta” – argumenta.

Para o médico, é uma satisfação estar na linha de frente,e para isso pede a Deus inspiração e proteção. “No final, mais um dia vencido. E com alegria quando não perdemos ninguém, quando vemos pacientes melhorando. Quando termina com mortes, levamos a tristeza conosco. Mas encontramos amparo na família, que nos apóia, que entendem nosso sofrimento e preocupação” – afirma, mostrando-se confiante na superação das dificuldades.

Essa esperança, ressalta Marques, vem das famílias dos pacientes recuperados.

“Já tive momentos de muita felicidade ao ver vidas serem salvas quando todos já tinham tirado as luvas, baixado a cabeça. De repente, como um milagre divino, o paciente volta à vida. A alegria de ver o brilho nos olhos do paciente e da família, das pessoas que ao amam, que se sentem felizes por ter o ente querido de volta. Salvamos também as vidas no entorno desse paciente. Eu sei que direta ou indiretamente todos eles estão muito agradecidos com a gente, e isso eu digo sem hipocrisia, não tem dinheiro no planeta terra que pague uma emoção como essa. É muito bonito, muito bom, é realmente divino, ver um paciente recuperado” – ilustra.

Empresário Junior Dursky, disse que prefere faturar sem se importar com as mortes por Covid-19 Foto: Divulgação

É por essa emoção que o médico Henrique Marques considera estranho alguém indagar “o que são 5 mil vidas, diante da economia, diante de toda uma população?”. Ele faz referência as declarações do empresário Junior Durski, apoiador do presidente  Jair Bolsonaro. Em março último, no início da contaminação e das mortes provocadas pelo coronavírus, Durski afirmou:

“Eu sei que temos que chorar e vamos chorar pelas pessoas que morreram por conta do coronavírus. Vamos isolar os idosos, aqueles com problemas de saúde, mas não podemos parar por conta de 5 mil pessoas que vão morrer”.

Hoje o Brasil tem mais de 57 mil mortes, e quase 1 milhão de pessoas infectadas. Diante dessa realidade avassaladora, e em resposta ao empresário Junio Dursky, o médico afirma:

“A morte de cada ser me diminui. Cada um de nós é uma célula que se torna um conjunto. Quando uma dessas células morre, a gente morre também. Ainda mais quando estamos do lado, podendo fazer alguma coisa por essa vida”.

 

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