Por Eleonora Duse de Pontes Leite*
Assistindo ao Fantástico, vi mais uma daquelas reportagens que já viraram rotina: acidentes de moto, vidas ceifadas, famílias em luto, hospitais lotados. Enquanto as imagens passavam na tela, eu pensava — não dá para colocar a culpa só nos carros, nos buracos das ruas ou na falta de fiscalização. Claro, tudo isso contribui, e muito. Mas não dá para ignorar o outro lado da história: a imprudência dos próprios motociclistas.
Me peguei pensando, com uma ponta de ironia e outra de espanto: qual será o santo que protege os motoqueiros? Porque eles são, muitas vezes, imprudentes demais. Cortam os carros pela direita, se enroscam entre os ônibus, avançam sinais vermelhos como quem desafia a própria sorte. Não é só adrenalina — parece quase uma fé cega, uma crença de que, com eles, nada vai acontecer.
Mas acontece. Todos os dias. O número de acidentes de moto no Brasil é assustador: são milhares de mortes, dezenas de milhares de feridos, e um custo altíssimo para a saúde pública. Mais do que números frios, são histórias de jovens interrompidas, sonhos que não chegam ao destino.
Não quero aqui demonizar os motoqueiros — muitos trabalham duro, enfrentam jornadas exaustivas, ganham a vida sobre duas rodas. São entregadores, mototaxistas, trabalhadores que movimentam a cidade. Mas não posso deixar de dizer: a imprudência, muitas vezes, é a maior inimiga deles mesmos.
Talvez o verdadeiro santo que os proteja seja a sorte — essa entidade caprichosa que, quando falha, não dá segunda chance.
E aí, o que sobra? A dor, a perda, o vazio. E a pergunta que não quer calar: até quando?
E, no meio dessa dança perigosa sobre duas rodas, quase ninguém fala deles: os caronas. Gente que sobe na garupa confiando mais no piloto do que na própria sorte. Eles também estão ali, vulneráveis, expostos, sem a menor chance de reagir diante de um freio brusco ou de uma ultrapassagem arriscada.
Muitas vezes, o carona é quem menos tem escolha — acompanha o amigo, o namorado, ou simplesmente precisa daquele meio de transporte para chegar ao trabalho, à escola, ao compromisso urgente. E ali vai, pendurado, segurando firme, rezando baixo, sem saber se volta.
A imprudência, quando existe, não é só um risco para quem pilota. Ela se estende para quem confia a vida a quem conduz. É uma responsabilidade dobrada, ou pelo menos deveria ser. Mas nem sempre é assim. Capacetes frouxos, falta de equipamento de proteção, excesso de velocidade… e lá vão os dois, ou três, quem sabe, porque não é raro ver famílias inteiras equilibradas numa só moto, como se fossem imunes às leis da física e aos perigos da cidade.
Fico pensando: será que o carona também tem um santo particular que o protege? Ou será que depende, apenas, da prudência — ou imprudência — de quem está na frente?
No fim, todos apostam na mesma coisa: na sorte. E, como a gente bem sabe, ela não costuma avisar quando decide falhar.
*Graduanda em Jornalismo





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