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A necessidade de transver o mundo

por | 11 jun, 2025

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Foto: Divulgação

Minhas saudações respeitosas e afetuosas a todos os artistas, coletivos, movimentos e segmentos culturais aqui presentes.

É uma alegria e uma honra compartilhar este momento com tantas personalidades que fazem da arte um gesto cotidiano de resistência, coragem e construção de sentido. Em respeito a todos e todas as artistas, optarei por não citar nomes, para não correr o risco de cometer injustiças.

Senhoras e Senhores,

Pensar a arte, viver a arte, respirar a arte… é um chamado que, muitas vezes, não escolhemos: ela nos escolhe. É ventura, é vocação. E, por vezes, é dor. É ardência. É solidão, silêncio e invisibilidade. Mas também é ferramenta, é espada, é pão — e, sobretudo, é profissão.

Essa arte — especialmente a música — que nos consome e, ao mesmo tempo, nos sustenta, é como madeira em brasa: queima por dentro, ilumina por fora. Fossem apenas aplausos… Mas sabemos que nem sempre são. Quantas vezes o “não” foi, para nós, uma frase completa?

Como escreveu o poeta alagoano Jorge de Lima:

“Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.”

A arte é também lâmina. É o nosso modo de tocar o que não se vê, de acender o invisível. A ciência nos ensina que um átomo possui frequência e energia. E as notas musicais também são frequências. Se caminhamos do átomo à molécula, às organelas, às células, tecidos, órgãos, sistemas, organismos, populações, comunidades, ecossistemas e biosfera, então, sim: todos podemos ser considerados notas musicais de uma grande sinfonia chamada humanidade.

Todos somos música. E em geral fazemos música para um público que também é música. É catarse.
Na nossa experiência coletiva da Orquestra Filarmônica de Alagoas, onde produzimos o que chamamos de “música líquida” — aquela que se consome no instante, efêmera, e que nunca se repetirá da mesma forma, temos percebido o quão valioso é observar como artistas e público entram e saem transformados de uma apresentação.

E neste sentido, corroboro com Manoel de Barros quando diz:

“O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.
É preciso transver o mundo.”

Ver além do que se vê. Enxergar pelos poros, com as raízes, com a alma. É por isso que precisamos investir na formação sensível da sociedade. Refiro-me à arte como presença viva. Como diferença. Como escuta. Como construção de mundo. Porque a arte educa. Semeia valores. Ensina a perceber nuances. Ensina a reconhecer a beleza complexa que existe em todas as formas de vida.

Este compromisso firmado com a cultura, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, é um sinal concreto e já comprovado de que a arte movimenta a economia. As indústrias criativas e culturais representam mais de 3% do Produto Interno Bruto do Brasil. Trata-se de um setor dinâmico, que cresce, gera empregos, oportunidades e desenvolvimento sustentável.

A Lei Estadual de Incentivo à Cultura será como semente lançada a solo fértil. Gerará frutos diversos, em múltiplas terras, vozes, ritmos e estéticas. Ela pode ser ponte construída sobre os abismos. Pode ser estrada de ida e volta entre o sonho e o gesto. Ela pode ser futuro.

O sociólogo Zygmunt Bauman afirmou:

“Em vez de construir muros, deveríamos construir pontes.”

E é isso que celebramos aqui hoje: a construção de uma ponte — não apenas entre governos e artistas, mas entre tempos, realidades e futuros possíveis. Ao gesto, ao sonho — e à certeza de que a arte sempre seguirá.

Sigamos, pois, transvendo o mundo.

Muito obrigado.

Luiz Martins, maestro

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