quarta-feira, 15 julho 2026
Algumas nuvens
Maceió
24°C
Algumas nuvens
Algumas nuvens
Maceió
24°C
Algumas nuvens

Greve encerrada, danos permanentes: a educação pública segue à espera de prioridade

por | 12 jun, 2025

ESPALHE A NOTÍCIA
Link copiado para o Instagram!

Foto: Sinteal

Por Eleonora Duse de Pontes Leite*

A greve dos profissionais da educação da rede municipal de Maceió chegou ao fim, mas os efeitos da paralisação — e, mais ainda, as causas que a motivaram — seguem presentes. Na última sexta-feira (6), após 33 dias de mobilização, a categoria decidiu suspender a greve após assembleia que aprovou a nova proposta da Prefeitura: reajuste de 5% com implantação imediata e pagamento de retroativos de janeiro, além do compromisso com biênios, progressões e a criação de uma mesa de negociação permanente.

O encerramento da paralisação, contudo, não apaga os prejuízos acumulados durante mais de um mês sem aulas, nem muito menos repara o dano provocado por anos de descaso com a escola pública. A greve não foi apenas mais uma paralisação: foi o grito de uma categoria que enfrenta, há tempos, a negligência do poder público e o desrespeito aos seus direitos mais básicos.

Enquanto professores reivindicavam o óbvio — salários justos, infraestrutura digna e cumprimento das leis que asseguram suas carreiras — milhares de crianças ficaram fora da sala de aula. Alunos de famílias vulneráveis foram os mais impactados, privados não apenas do direito ao aprendizado, mas também da merenda escolar e do convívio social que a escola proporciona.

Durante o movimento, ficou claro que os educadores não lutavam apenas por reajustes: lutavam por dignidade, por valorização e por um ambiente minimamente adequado para ensinar e aprender. A situação das escolas, marcada por prédios deteriorados, escassez de materiais e insegurança, torna qualquer apelo por qualidade de ensino quase inviável. Como exigir excelência quando falta o básico?

O maior símbolo do descaso foi a postura da gestão do prefeito JHC, que durante boa parte da greve se manteve ausente das negociações diretas, limitando-se a respostas burocráticas e à retórica de responsabilidade fiscal. O silêncio do Executivo municipal e a ausência de diálogo efetivo apenas ampliaram a indignação da categoria e da população que depende da rede pública de ensino.

A decisão pelo retorno às aulas veio após longas tentativas de negociação e crescente pressão social, culminando com a atuação do Ministério Público de Alagoas, que acatou decisão judicial determinando a volta imediata dos educadores. Nesta segunda-feira, 9 de junho, professores e alunos retomam a rotina escolar — com o desafio de recuperar o tempo perdido e reorganizar um calendário já comprometido.

O maior dano, no entanto, é simbólico: a reafirmação de que a educação pública segue em segundo plano, tratada como fardo e não como prioridade. A cada greve, a precariedade se normaliza; a cada impasse, reforça-se a ideia de que a escola pública é um problema a ser gerenciado, não um investimento a ser valorizado.

As marcas deixadas por esta paralisação exigem mais que medidas paliativas. Exigem vontade política real, escuta ativa dos trabalhadores da educação e compromisso com o direito de aprender. Que o retorno às aulas não seja apenas o fim de um conflito, mas o início de uma nova postura diante da educação pública.

Enquanto isso, as crianças esperam. Esperam que, desta vez, sejam prioridade — não apenas nos discursos, mas nas ações.

*Graduanda em Jornalismo

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *