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Viagens sonoras

por | 19 jul, 2026

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As viagens propiciam momentos inesquecíveis, fatos pitorescos, degustações deliciosas, paisagens e lugares deslumbrantes, além de fotos, muitas fotos. Agora, também é possível ter das viagens, por locais e sensações, música, muita música instrumental. Estas, por sua vez, propiciam novas viagens sensoriais de altíssima qualidade! É o que nos propõe o trompetista Guilherme Dias Gomes, com o álbum Trips. Como o próprio nome diz – viagens, em português. Neste trabalho, Guilherme reúne temas compostos com inspiração em diversos lugares e trajetos percorridos pelo músico.

Não há como tecer comentário sobre o trabalho do Guilherme Dias Gomes, sem antes mencionar sua filiação. Simplesmente, o seu sobrenome não permite que se ignore o fato dele ser filho dos geniais autores das mais significativas e inesquecíveis telenovelas produzidas pela televisão brasileira! Óbvio, ele é filho dos saudosos Dias Gomes e Janete Clair! Certamente, isso lhe abriu portas e caminhos, facilitou-lhe a vida em algumas circunstâncias, porém, não mais do que o seu próprio talento, como fica fácil de constatar neste álbum.

Formação Musical

Antes de irmos direto às peculiaridades musicais do Trips, não custa nada sabermos um pouco mais sobre esse músico talentoso e criativo, além do seu sobrenome famoso. De cara, começaria logo a esclarecer que, por influência dos pais, Guilherme estudou arranjo e orquestração com Alceo Bocchino e o grande maestro Guerra-Peixe. Ele é licenciado em música pela UNIRIO e estudou na Berklee College of Music (EUA), como que cumprindo quase um ritual para os que queriam estudar jazz e podiam ter esse privilégio, em determinada época no Brasil. Assim, Guilherme Dias Gomes possui vasta experiência no jazz e na música brasileira! É daqueles que também foi arrebatado pela batida diferente da bossa nova, mas foi poupado dessa cruzada por outras possibilidades, tão abrangentes quanto à bossa, porém, de outra envergadura musical. Coisas tipo o som, por exemplo, de Claudio Roditi, Dave Brubeck, John Coltrane, Miles Davis e tantos outros, que teceram sua relação com o jazz e o seu amadurecimento musical. E como ele mesmo já afirmou: “quem toca jazz é capaz de tocar qualquer outro tipo de música!”

Dito isso, a nossa viagem pelo Trips, com o perdão do pleonasmo, começa pelo tema ‘Amstel Bossa Nova’. Evidentemente, como o próprio nome revela, trata-se de uma bossa com uma melodia de fácil navegação, como também é o Amstel, principal rio de Amsterdã e dos Países Baixos. E para pôr as cartas na mesa, logo na entrada, com exceção do Rafael Barata (bateria), Firmino (percussão) e o André Vasconcelos (contrabaixo), os improvisos são franqueados a Idriss Boudrioua (sax tenor), David Feldman (piano) e ao próprio Guilherme Dias Gomes. Esse é o time de músicos afiados, que atua nesse trabalho e agrega imenso valor aos belos temas de um compositor inspirado. Aliás, esse time estava tão coeso, que algumas faixas, como ‘River Thames’ e ‘Salvaterra’, foram gravadas logo no primeiro take. A título de curiosidade, o disco todo foi gravado em apenas duas sessões.

Homenagem

A faixa 2, ‘Salvaterra’, é daqueles temas que facilmente poderia ser trilha sonora de uma produção cinematográfica, com um roteiro de ação frenética e depois calmaria sofisticada, tipo uma cena onde o par romântico aparece em um automóvel conversível, trafegando por alguma rodovia de Mônaco, como no clássico Ladrão de Casaca (Alfred Hitchcock), com uma daquelas paisagens tão deslumbrantes quanto era a Grece Kelly. É aqui que André Vasconcelos faz um solo inspiradíssimo, com toda classe sonora de um contrabaixo acústico em seus registros encorpados e graúdos. A próxima é ‘Clair’, faixa 3, que além de ser uma homenagem à sua mãe, trata-se de uma regravação do primeiro disco do Guilherme, ‘Milhas e Milhas’, lançado em 1988. É um tema elegante, classudo, que, sem precisar forçar a barra, será fácil encontrar semelhanças com a imagem de Janete Clair do nosso imaginário.

Como o álbum faz referências a diversos locais do mundo, ‘Endinburgh’, faixa 4, sede de um dos maiores festivais culturais do planeta, é puro jazz em sua essência. É, também, onde Rafael Barata mostra o quanto vale baquetas ágeis e competentes, e nos oferta um rápido solo de batera, movido a detalhes: limpo, objetivo, e nem por isso fácil. Sem perder tempo, num salto do jazz ao samba, com a facilidade de deslocamento e de encurtar distâncias, que só a Europa oferece nos TGVs, como quando se bebe uma cerveja em um país e depois se vai urinar em outro, ‘München Samba’ nos alerta de que Munique é a maior cidade da Baviera e é lá que acontece a Oktoberfest autêntica. Então, nada melhor do que um belo samba para traduzir essa alegria, mesmo que germânica!

Rio e Mar

É claro que depois da animação navegar é preciso, ou até mesmo se deixar levar pelas águas limpíssimas de um ‘River Thames’, faixa 6, mais conhecido por nós como o Rio Tâmisa, que sai do sul da Inglaterra, banha Londres e deságua no mar do Norte. Tipo um bom timoneiro, Guilherme Dias Gomes nos conduz pela calmaria de um tema de rara beleza, que nos oferece a contemplação de uma travessia por nuances e sutilezas, acalmando e assentando a alma em suavidades, sem sobressaltos e corredeiras, às vezes, até muito próximo do silêncio.

Certamente, para despertar dessa atmosfera quase onírica, o próximo tema é ‘Maracatu Lacraia’, como se ao compositor fosse necessário certo toque de brasilidade, pela originalidade da cultura popular nordestina, cuja raiz de tão fincada e aprofundada em nossa essência mais tenra, é capaz de dar identidade e nacionalidade mais eficazes do que qualquer passaporte a ser carimbado na imigração. A próxima, faixa 8, é ‘Cabin 3334’, que encerra o álbum com a melancolia de quem se encontra em uma cabine de navio e depois de algum tempo beira o banzo. É um belo tema, daqueles que, certamente, Chat Baker assinaria com o maior prazer! Sem dúvida, um momento especial dessa viagem proposta por Guilherme Dias Gomes, que começa nas águas do Amstel e finda em algum mar azul, como findam os rios em suas rotas infinitas, zimbrando águas, como o vento às velas. Porém, é em Trips que temos uma possibilidade de “diáspora musical”. Se eu fosse você, caro leitor(a), embarcaria nessa viagem!

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

Pulo do Gato: “No jazz, todo mundo tem seu espaço, sua hora de solar.” (Guilherme Dias Gomes)

Ouça aqui: https://music.youtube.com/watch?v=PNBRMSSAnF4&list=OLAK5uy

 

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