Por Duse Leite*
Sempre que a Seleção Brasileira entra em campo, algo curioso acontece. Por noventa minutos, milhões de brasileiros deixam de lado, ainda que temporariamente, as preocupações do dia a dia. As contas continuam chegando, os problemas do país permanecem os mesmos, mas a atenção se volta para a bola, para o placar e para a expectativa de uma vitória.
Não é porque o futebol resolva os problemas nacionais. Nunca resolveu. Mas continua sendo um dos poucos assuntos capazes de reunir pessoas de diferentes idades, classes sociais e visões de mundo em torno de uma mesma emoção.
O que mudou foi a forma de torcer.
Houve um tempo em que o Brasil entrava em qualquer competição como favorito quase absoluto. Nossa Seleção era temida, admirada e considerada referência mundial. Hoje, o futebol se tornou mais equilibrado. Os jogadores brasileiros atuam nos maiores clubes do planeta, nossos métodos são conhecidos e estudados, e os antigos “segredos” do futebol brasileiro há muito ultrapassaram as fronteiras do país.
A Seleção continua respeitada, mas já não impõe o mesmo temor de outras décadas. E talvez isso tenha tornado a torcida brasileira mais realista. A esperança continua existindo, mas vem acompanhada de cautela. Já não se trata da certeza da vitória, mas do desejo de que ela aconteça.
Ainda assim, o futebol preserva algo valioso: a capacidade de criar momentos de união. Em um país tão diverso e frequentemente dividido, poucos acontecimentos conseguem fazer tanta gente olhar na mesma direção ao mesmo tempo.
Talvez seja essa a verdadeira força do futebol. Não a promessa de resolver dificuldades nem a ilusão de um futuro perfeito. Sua importância está em oferecer uma pausa, um instante de encontro e um motivo para acreditar, mesmo que por algumas horas.
No fim das contas, a esperança que entra em campo hoje não é a mesma de antigamente. É uma esperança mais madura, consciente dos desafios e das limitações. Mas continua sendo esperança. E isso, por si só, já tem seu valor.
*Funcionária pública e jornalista.






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