Por Geraldo de Majella*
No coração da Zona da Mata Sul de Pernambuco, a antiga usina de açúcar Santa Terezinha, em Água Preta, ganhou uma nova vida e um novo significado. O que por mais de um século foi símbolo da monocultura da cana e da concentração de terras e riquezas, hoje se transformou em um espaço de rara beleza e potência cultural: a Usina de Arte. Idealizada em 2015 por Bruna e Ricardo Pessôa de Queiroz, o projeto é uma iniciativa privada de forte caráter público, que alia arte contemporânea, educação ambiental e inclusão social em uma área de 42 hectares de natureza revitalizada.
No local onde antes se moía cana e produzia açúcar, hoje florescem mais de cinco mil espécies de plantas, em especial as nativas, que estão sendo plantadas desde o início do projeto, recompondo a paisagem local. Essas plantas formam um jardim botânico que se integra harmoniosamente a dezenas de obras de artistas brasileiros e internacionais. Algumas dessas obras, como Diva, da artista pernambucana Juliana Notari, provocam e dialogam com o passado patriarcal e conservador da região.
Outras, como Generator, da sérvia Marina Abramović, convidam à experiência sensorial e à reflexão espiritual. Uma das mais simbólicas é Eremitério Tropical, do artista Márcio Almeida, edificação em alvenaria coberta por vegetação, inspirada na simplicidade e no recolhimento. O título da obra foi retirado do livro Cartas da prisão e do sítio, com cartas do frade dominicano Frei Fernando de Brito, escritas na prisão e durante seu recolhimento em Sítio do Conde, na Bahia — que ele chamava de eremitério tropical.
A obra evoca espiritualidade, resistência e introspecção, reafirmando o compromisso do parque com a memória e os direitos humanos, em sintonia também com o espírito de fé e luta de Frei Tito de Alencar. Frade dominicano como Fernando, Frei Tito foi militante estudantil e símbolo da resistência à ditadura militar. Preso e barbaramente torturado pelo regime, viveu no exílio na França, onde tirou a própria vida aos 28 anos, marcado pelos traumas da repressão. Sua trajetória integra essa mesma memória histórica preservada pela Usina.
Outro destaque é a instalação Um Campo da Fome, do artista Matheus Rocha Pitta, que transforma o espaço em um campo arado, silencioso e tenso, onde o vazio e a ausência se tornam matéria plástica. A obra remete à escassez, à desigualdade histórica e à memória da fome como fenômeno político, social e humano que atravessa o Nordeste e o Brasil. Em vez de ilustrar o sofrimento, Rocha Pitta planta a ideia da fome como uma presença invisível, mas estruturante, desafiando o visitante a pensar sobre o que sustenta — e o que falta — em nossa sociedade.
Faixa de Gaza, da artista Georgia Kyriakakis, também marca presença no acervo da Usina. A obra, composta por linhas traçadas no solo e tensões espaciais, cria um campo de percepção onde o público é instigado a refletir sobre fronteiras simbólicas e reais, conflitos geopolíticos e limites cotidianos. Assim como outras obras do parque, ela amplia o debate sobre o mundo contemporâneo e convida a uma experiência estética engajada.
Também marcam presença artistas como Ronaldo Tavares, escultor e funcionário da própria Usina de Arte, cuja produção combina sensibilidade com reflexão crítica sobre o cotidiano. Ele é um exemplo do quanto o projeto é também um gerador de oportunidades e talentos locais, integrando arte, trabalho e identidade comunitária.
Com um acervo crescente e dinâmico, a Usina de Arte funciona como museu a céu aberto, laboratório criativo e campo de debate sobre os rumos do presente. Mas a transformação mais profunda talvez esteja na vida das mais de seis mil pessoas que vivem nos arredores. A presença do parque impulsionou a criação de pequenos negócios ligados ao turismo cultural e à sustentabilidade.
Famílias da comunidade passaram a oferecer hospedagem em casas adaptadas, comidas típicas em pequenos restaurantes, venda de artesanato, guias turísticos locais e serviços de transporte. Cursos de capacitação oferecidos pela própria Usina contribuíram para que essas iniciativas se consolidassem, gerando renda e autoestima. Projetos de educação ambiental com crianças e jovens, oficinas de arte e programas de empreendedorismo feminino também fazem parte desse novo ecossistema social.
O parque também conta com guias especializados, como Tales e Bia, que ajudam os visitantes a explorar e compreender o rico conteúdo cultural e histórico do espaço, oferecendo uma experiência ainda mais imersiva.
O que antes era símbolo de um ciclo de exaustão da terra e da exploração do trabalho, hoje se apresenta como um modelo de reconciliação entre memória, cultura e natureza. A Usina de Arte não apenas devolve à Zona da Mata a dignidade do convívio com a beleza e o conhecimento, como projeta esse território no cenário cultural brasileiro e internacional. Como dizem com orgulho os pernambucanos: é arte para o mundo.
*Historiador e jornalista









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