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IA pode estar pensando pelo aluno? PISA reacende alerta sobre aprendizagem entre adolescentes

por | 20 set, 2026

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O avanço da inteligência artificial entre estudantes de 15 anos começa a levantar uma questão que vai além do acesso à tecnologia: até que ponto a ferramenta ajuda a aprender ou passa a fazer pelo aluno aquilo que ele deveria desenvolver sozinho?

Dados do PISA 2025, divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mostram que 48% dos adolescentes brasileiros usam chatbots de inteligência artificial pelo menos uma vez por semana para ajudar nos estudos. O índice supera ligeiramente a média dos países da OCDE, de 46%.

Um dos dados que mais chamam atenção aparece entre os estudantes que utilizam IA diariamente para produzir textos escolares. Eles tiveram, em média, 28 pontos a menos em Ciências do que aqueles que raramente recorrem à ferramenta para essa finalidade. A diferença equivale a aproximadamente um ano e meio de escolarização, embora a OCDE ressalte que o resultado aponta uma associação, e não uma relação de causa e efeito.

Para o neuropediatra Flávio Santana, o principal ponto não está na frequência de uso, mas na função que a inteligência artificial assume durante o processo de aprendizagem.

“A pergunta não é se a IA deve ou não entrar na educação. A pergunta é: quando, para quê e de que maneira ela entra no processo de aprendizagem?”, afirma.

Na adolescência, habilidades relacionadas à atenção, memória de trabalho, planejamento e identificação de erros ainda estão em desenvolvimento. Segundo o especialista, atividades como tentar lembrar, organizar informações, formular respostas, cometer erros e corrigi-los fazem parte do próprio processo de construção do conhecimento.

Por isso, receber um resumo pronto de uma inteligência artificial não equivale necessariamente a ler um conteúdo, identificar suas ideias principais e produzir uma síntese própria. Da mesma forma, obter um texto completo pode reduzir etapas importantes, como recuperar informações da memória, organizar argumentos e revisar a própria produção.

Orientação faz diferença

Os dados do PISA também apontam para a importância da orientação no uso da tecnologia. Na média da OCDE, 63% dos estudantes afirmam receber orientação escolar para avaliar criticamente as respostas produzidas por ferramentas de IA. No Brasil, esse percentual cai para 51%.

Em Singapura, onde 66% dos estudantes dizem utilizar IA para aprender, 81% relatam também receber orientação para analisar criticamente o conteúdo gerado pela tecnologia.

Para Flávio Santana, a inteligência artificial pode ser uma aliada da educação quando estimula o raciocínio, em vez de substituí-lo.

“A IA pode ser uma excelente ferramenta educacional. O ponto é saber se ela está ajudando a criança a pensar ou pensando no lugar dela”, explica.

O especialista também chama atenção para a metacognição, capacidade de reconhecer o que se sabe, identificar dificuldades e perceber o que ainda precisa ser aprendido. Segundo ele, reconhecer uma resposta correta não significa necessariamente ter desenvolvido a capacidade de construí-la sozinho.

Nesse sentido, a IA pode contribuir para o aprendizado quando funciona como uma espécie de apoio, fazendo perguntas, oferecendo feedback e ajustando o nível de dificuldade. O risco aparece quando a ferramenta passa a executar as etapas cognitivas que deveriam ser realizadas pelo próprio estudante.

“O desafio não é proteger a criança da inteligência artificial. É evitar que a tecnologia faça por ela justamente aquilo que o cérebro ainda precisa aprender a fazer”, afirma Santana.

O debate, portanto, não se resume a liberar ou restringir o uso da inteligência artificial nas escolas. A questão central passa a ser definir quais habilidades os estudantes precisam desenvolver por conta própria e como a tecnologia pode ampliar esse aprendizado sem substituir o esforço cognitivo necessário para construí-lo.

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