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O avanço dos casos de ansiedade, tristeza e solidão entre jovens brasileiros deixou de ser apenas um tema de saúde pública. Dados recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) indicam um fenômeno mais amplo: o mal-estar de uma geração que cresceu em meio à instabilidade e à perda de perspectivas de futuro.
Em artigo publicado no blog Outras Palavras, o economista Marcio Pochmann interpreta esse cenário como reflexo de transformações estruturais na sociedade brasileira. Para ele, o sofrimento psíquico entre jovens expressa mudanças no modelo econômico e nas formas de inserção social.
Segundo a análise, desde os anos 1990 o país perdeu dinamismo econômico, enfrentou desindustrialização e viu crescer a precarização do trabalho. Nesse contexto, a promessa de mobilidade social — historicamente associada à educação e ao emprego — se enfraqueceu.
O resultado é uma geração mais escolarizada, porém inserida em um mercado instável e fragmentado. “A ansiedade deixa de ser apenas individual e passa a refletir um tempo de incerteza”, aponta o autor.
Fim da promessa de futuro
Durante décadas, especialmente entre os anos 1930 e 1980, predominou a percepção de que o esforço poderia levar à melhora de vida, ainda que de forma desigual. Esse horizonte, no entanto, foi sendo corroído nas últimas décadas.
Hoje, jovens convivem com uma realidade marcada por empregos precários, vínculos frágeis e poucas garantias. A hiperconectividade e o ambiente digital ampliam esse cenário, mas não são sua causa central.
“A insegurança não nasce só das redes, mas da falta de oportunidades concretas”, sustenta a análise.
Nesse ambiente, a frustração deixa de ser pontual e se torna estrutural. Mesmo seguindo o caminho esperado — estudo, qualificação, adaptação — muitos jovens não conseguem acessar um projeto consistente de futuro.
Um novo sujeito social
Para Pochmann, o que está em formação vai além de uma “geração ansiosa”. Trata-se de um novo sujeito social, ainda difuso, marcado por insegurança e sem tradução política clara.
Esse mal-estar, segundo ele, não se manifesta como revolta organizada, mas como experiência individualizada, muitas vezes silenciosa. A pressão social, antes externa, passa a ser internalizada.
Há riscos nesse processo: o sofrimento pode ser capturado por soluções individualistas ou discursos de adaptação a uma realidade desigual. Mas também existe outra possibilidade.
A ansiedade, nesse contexto, pode ser o primeiro sinal de uma nova consciência coletiva — ainda em formação — sobre as mudanças profundas no modelo social brasileiro.
Mais do que um alerta sanitário, os dados da PeNSE indicam uma transformação em curso: uma geração que já não vê o futuro como promessa garantida, mas que pode, justamente por isso, recolocá-lo no centro do debate político.





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