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Francisco Julião, 70 anos das Ligas Camponesas e a trajetória de luta pelos direitos dos trabalhadores rurais nordestinos

por | 16 jun, 2025

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Reprodução

Por Moacir Rocha Santana Filho e Henrique Matthiesen

Ocorreu na capital alagoana, na última sexta-feira, 30 de maio de 2025, um encontro para divulgar a nova publicação da coleção “Memórias Trabalhistas” produzida pelo Centro de Memória Trabalhista (CMT) da Fundação Leonel Brizola-Alberto Pasqualini (FLB-AP), uma cartilha sobre a trajetória política e história do líder das Ligas Camponesas, Francisco Julião, que teve sua memória e legado celebrados em território alagoano.

O encontro que também lembrou os 70 anos das Ligas Camponesas, foi organizado pela FLB-AP em Alagoas, sob a coordenação do jornalista Alexandre Câmara, contou com uma palestra do sociólogo Henrique Matthiesen, coordenador nacional do Centro de Memória Trabalhista (CMT) e organizador editorial da cartilha, e foi sucedido por uma mesa de debates.

Em sua palestra, Henrique Matthiesen ressaltou que, “Julião tinha profunda convicção na reforma agrária para aqueles trabalhadores que formavam a base do povo brasileiro (…), doou a sua vida por essa convicção”, e “aquele movimento de sem terra das Ligas Camponesas incendeia o Brasil de tal forma, criando consciência, falando com lirismo, erudição, que as Ligas começam a se espalhar pelo Brasil. Trabalhadores de estados como Alagoas e Paraíba, começam a pressionar o governo, o governo do Jango mesmo (…), até que veio o golpe”. Ao final, questionando como poderíamos definir a pessoa e o legado do líder das ligas, o sociólogo concluiu: “dentro desse quadro, Francisco Julião se transforma numa pessoa épica (…), um ser mitológico, cuja voz lírica e filosófica rompe as amarras da opressão, um erudito subversivo, de convicções inabaláveis, que escreveu a sua existência na dimensão histórica dos que ousaram sonhar e lutar pela libertação dos oprimidos”.

Olga Miranda, jornalista e advogada, integrante do Comitê de Memória, Verdade e Justiça de Alagoas, filha de Jayme Amorim de Miranda, um dos alagoanos desaparecidos políticos na Ditadura Militar, em sua fala lembrou que assim como seu pai, Julião teve uma trajetória política iniciada na esquerda e contribuiu para a construção de um futuro democrático: “a história não pode esquecer os grandes homens que passaram por nós, que fizeram a construção dessa democracia que nós vivemos hoje, e se podemos falar, podemos estar reunidos aqui, podemos ter vários partidos, é porque esses homens antecederam essa luta que proporcionaram essa abertura”.

Foto: Divulgação

Moacir Rocha, advogado e pesquisador, integrante do Comitê de Memória, Verdade e Justiça de Alagoas, fez uma análise sobre a questão da memória da luta dos trabalhadores rurais alagoanos: “nós temos um certo apagamento da história dos camponeses nordestinos, mas em Alagoas esse fenômeno é ainda mais forte. Podemos citar Pernambuco estudando e mantendo a memória dos camponeses e suas ligas, também podemos citar a Paraíba estudando e valorizando o mesmo movimento em seu território. Recentemente, eu estive em João Pessoa, no 9º Encontro dos Comitês de Memória, Verdade e Justiça do Norte e Nordeste do Brasil, representando Alagoas, e nós fizemos uma visita ao Memorial das Ligas e Lutas Camponesas, em Sapé, é impressionante a preservação da memória naquele local. Alagoas não tem esse histórico, não há um marco de memória da luta dos camponeses alagoanos, precisamos resgatar essa história. Nesse sentido, Julião serve como um exemplo, como inspiração, quem foi o Francisco Julião de Alagoas?”.

Relatos, discursos e documentos: a história na cartilha de Francisco Julião

Francisco Julião Arruda de Paula nasceu no agreste pernambucano, Bom Jardim, em 16 de fevereiro de 1915, nas terras do Engenho Boa Esperança. Diplomado pela tradicional Faculdade de Direito do Recife, em 1939, “advogado das lides consideradas perdidas e das causas sem honorários”, das meretrizes do cais do porto do Recife aos galileus, camponeses e foreiros do Engenho Galileia, em Vitória de Santo Antão, foi considerado o “terror absoluto do latifúndio nordestino”, destaca o professor e advogado Jonas Pereira dos Santos em seu artigo. Julião exerceu essa “advocacia campesina” entre 1940 e 1955, e ganhando certa projeção política pelas causas defendidas foi eleito deputado estadual, em 1954, pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB).

Em tempos de revoltas e revoluções, passou a imperar o discurso da “ameaça vermelha” na América Latina, sobretudo após o sucesso da Revolução Cubana, em 1959. Julião é convidado por um grupo de camponeses para liderar a Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores de Pernambuco (SAPPP), conhecida como a “Primeira Liga”, ou “Liga Camponesa da Galileia”. A SAPP foi fundada em 1955, uma sociedade civil beneficente de auxílio mútuo, com objetivo de criar uma escola primária e adquirir caixões para os pobres camponeses do engenho de “fogo morto” – aquele dedicado à plantação de cana para as usinas –, o Engenho Galileia. Em 1959, os camponeses conseguem a desapropriação do Engenho Galileia e, em 1960, aquele movimento já repercutia mundialmente, o New York Times anunciava: “Francisco Julião, o principal líder das Ligas, está tentando estender seu movimento para o sul do Brasil”. E, como resultado de sua forte defesa dos direitos dos trabalhadores rurais pernambucanos, Julião foi eleito deputado federal em 1962.

Verifica-se, então, uma escalada de militância política e revolucionária pelos direitos desses trabalhadores e por reforma agrária – “na lei ou na marra” – que seria interrompida em 1964, quando Julião foi preso pelos militares. Na prisão, ficou em companhia de Miguel Arraes, e posteriormente, em dezembro de 1965, foi exilado no México: “o exílio político é uma condenação eterna, porque quando você, depois de tantos anos, volta ao seu país, você já não encontra aquele país que você deixou”, escreveu Anacleto Julião, filho de Francisco Julião.

Por um período de nossa história, as Ligas Camponesas se mantiveram como o principal movimento de organização dos trabalhadores rurais do Brasil. De acordo com José Joaquim da Silva, mais conhecido como “Zito da Galileia”, as “Ligas Camponesas avançavam e alcançavam 13 dos 22 estados da federação”, assombrando as elites latifundiárias daquela época, “a luta camponesa chamou a atenção do mundo inteiro”, relembrando a “visita” de “Ted” Kennedy, irmão do presidente John Kennedy, na Galileia. Pesquisadores como o jovem Fernando Henrique Cardoso, Antonio Callado e Celso Furtado também passaram por lá na mesma semana. Foi com Julião que as Ligas “fundaram filiais, participaram de congressos, protestos, até que em 1964 aconteceu o golpe militar e o Engenho da Galileia foi invadido pelo Exército Brasileiro com o objetivo de prender as lideranças do movimento”.

João Pedro Stedile, economista e coordenador nacional do Movimento dos Sem Terra, conviveu com o líder das ligas e apontou em seu texto a memória de luta contra os usineiros nordestinos e uma realidade de violência: “Julião também contou da luta contra os usineiros e latifundiários do Nordeste, que sempre foram muito violentos e brutos, acostumados a acumular, explorando de forma cruel os camponeses sem-terra, desde os tempos de escravidão”.

Após mais de uma década de exílio em consequência do Golpe Militar de 1964 que derrubou Jango e o Trabalhismo, Francisco Julião – um símbolo da reforma agrária na nossa história política – retornou ao Brasil com a Lei da Anistia, integrando-se ao Partido Democrático Trabalhista (PDT) e participando do movimento pela redemocratização no país. Em um dos relatos contidos na cartilha, André Figueiredo, deputado federal (PDT-CE), relembra: “na década de 80, tive a honra de recebê-lo na Universidade Federal do Ceará (UFC) enquanto estava presidente do Centro Acadêmico da Faculdade de Economia. Um momento único que marcou nossa caminhada universitária”.

Para Manoel Dias, presidente da Fundação Leonel Brizola-Alberto Pasqualini, em artigo que integra a publicação, Julião “colocou a luta dos miseráveis sem-terra na pauta política nacional e internacional”, e “resgatar esta figura singular, através das nossas publicações, é reverenciar o melhor do Brasil, (…) e mostrar para as atuais gerações de onde viemos e qual é a nossa luta; afinal, somos fruto da luta de classes e nesta luta, nós temos lado”.

A cartilha reúne artigos, discursos, fotografias e documentos históricos ainda pouco conhecidos sobre a vida e a atuação de Francisco Julião enquanto político e líder das Ligas Camponesas.

“Acho que a nossa preocupação deve ser a de conquistar mais espaço para que os povos subdesenvolvidos possam conquistar a sua emancipação econômica e possam obter mais soberania.”

“O Brasil não existiria como este continente que é, se não houvesse aquele sentimento de defesa do solo, de defesa da existência do país como um todo, se não fosse o nordeste.” Francisco Julião

Referência:

Memórias Trabalhistas: Francisco Julião Arruda de Paula. Cartilhas Trabalhistas, volume 25. Brasília-DF: Fundação Leonel Brizola-Alberto Paqualini, 2024.

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