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Engajados, mas improdutivos: o abismo entre a popularidade digital e o trabalho legislativo na Câmara

por | 11 dez, 2025

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Fonte: Agência Pública

Se no plenário da Câmara o poder está nas mãos do Centrão, que controla cerca de 300 das 513 cadeiras, nas redes sociais o cenário é outro: o discurso da extrema direita é quem dita o ritmo, supera barreiras ideológicas e ocupa o topo das interações. Deputados conservadores, alinhados a pautas antidemocráticas e à retórica bolsonarista, são os que mais engajam no Instagram — a plataforma favorita dos brasileiros —, mas a popularidade digital não traduz produtividade legislativa. Um levantamento da Agência Pública mostra que, entre os 20 parlamentares mais influentes na rede em 2025, metade não aprovou sequer um projeto de lei como autor principal desde o início da atual legislatura.

Os dados gerados pela Zeeng analisaram curtidas e comentários de postagens entre 1º de janeiro e 1º de dezembro de 2025, traçando o ranking de engajamento. Dos 20 líderes, 11 pertencem à extrema direita, distribuídos entre PL, Novo e PSD. Outros três são de partidos mais à esquerda, Psol e Avante. Na centro-direita e centro, PP, União Brasil e MDB completam a lista com seis nomes.

A repercussão virtual, porém, contrasta com a baixa entrega de resultados concretos. Segundo a Agência Pública, quatro dos dez parlamentares que não aprovaram nenhum projeto também não figuram entre coautores de textos que viraram lei. Carla Zambelli (PL-SP), Maurício Marcon (PL-RS), Guilherme Derrite (PP-SP) e Fábio Teruel (MDB-SP) não possuem qualquer participação legislativa efetiva no período analisado.

Zambelli vive situação ainda mais dramática: está presa em Roma desde julho, após condenação por inserir documentos falsos no sistema do CNJ. Chegou a ter seus perfis bloqueados pelo STF por disseminação de discursos de ódio, medida revertida em setembro. Derrite se licenciou para comandar a Segurança Pública de São Paulo, retornando à Câmara apenas no fim de 2025. Já Teruel, mais discreto nas disputas políticas, investe em conteúdo motivacional e religioso, fórmula que o mantém entre os nomes de maior alcance digital.

O único que respondeu à reportagem foi Maurício Marcon, então vice-líder da oposição. Antipetista declarado e recém-filiado ao PL, ele justifica a baixa produção afirmando que projetos raramente são aprovados com autoria individual e que isso dependeria “de maior afinidade temática ou da Presidência da Casa”. Marcon cita como realização o PL 1.573/24, apensado a outro projeto aprovado em 2024, que endurece penas em crimes cometidos durante calamidade pública.

Reprodução

A análise da Agência Pública segue o critério regimental da Câmara, considerando autor principal apenas o primeiro signatário do projeto — aquele que exerce prerrogativa real na tramitação da proposta. A comparação expõe uma crescente desconexão: muitos parlamentares investem prioritariamente na performance digital, capitalizando engajamento e fidelização de base, enquanto apresentam pouca ou nenhuma entrega legislativa.

O fenômeno se repete entre seis deputados que constam apenas como coautores de projetos alheios: André Fernandes (PL-CE), Eduardo Bolsonaro (PL-SP), Sargento Fahur (PSD-PR), Gustavo Gayer (PL-GO), Mário Frias (PL-SP) e Delegado Palumbo (MDB-SP). Segundo consultores legislativos ouvidos pela Pública, trata-se de prática comum na Câmara: coassinaturas funcionam como apoio político, mas não representam trabalho legislativo efetivo. Em alguns casos, como o PL 1.564/24, do deputado Marcel Van Hattem, a lista de coautores ultrapassa 60 nomes.

Mesmo entre os que conseguiram aprovar um projeto, o impacto é limitado. Três parlamentares — Delegado Bruno Lima (PP-SP), Guilherme Boulos (Psol-SP) e Bia Kicis (PL-DF) — registraram apenas conquistas simbólicas, sem alterações práticas significativas. Lima teve aprovada a criação da Semana Nacional de Conscientização sobre a relação entre maus-tratos a animais e violência doméstica. Boulos, hoje secretário-geral da Presidência, instituiu agosto como mês de combate às desigualdades sociais. Já o projeto de Kicis homenageou o escritor Fernando Sabino, estabelecendo 2024 como o ano nacional do autor.

No Congresso, porém, curtidas não garantem influência. O pesquisador Luiz Fernando Estevez, doutor em Direito pela USP, explica que líderes de blocos e partidos continuam sendo as figuras mais decisivas na condução de propostas. Segundo ele, a percepção pública sobre o papel dos parlamentares mudou: antes, a métrica de reconhecimento estava ligada à produtividade; agora, visibilidade nas redes compete com a própria noção de desempenho legislativo.

“Há uma diferença expressiva entre o que é divulgado e o que é realizado”, diz Estevez. Para o pesquisador, o risco é evidente: a política passa a ser guiada por performance e não por resultado, criando um ambiente em que discursos inflamados superam entregas concretas.

O levantamento reforça uma realidade incômoda para a democracia brasileira: o poder das redes sociais sobre o comportamento parlamentar cresce, mas o trabalho que realmente transforma a vida do eleitor continua em segundo plano.

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