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Livro revela como grandes empresas colaboraram com a repressão durante a ditadura militar

por | 3 out, 2026

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Um novo livro lançado em São Paulo reúne documentos e relatos que detalham a participação de grandes empresas na estrutura de repressão durante a ditadura militar brasileira. A obra “Repressão Sociedade Anônima”, dos jornalistas Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli, mostra como trabalhadores de empresas instaladas principalmente no Grande ABC Paulista foram monitorados, perseguidos, demitidos, presos e, em alguns casos, torturados.

As informações foram apresentadas em reportagem da Agência Brasil, que acompanhou o lançamento da publicação realizado nesta quarta-feira (30).

A pesquisa dos autores levou três anos e envolveu documentos e entrevistas. O trabalho se concentrou em cinco montadoras: Mercedes-Benz, Volkswagen, General Motors (GM), Scania e Ford, além de outras grandes empresas metalúrgicas da região.

Segundo Eduardo Reina, os pesquisadores encontraram registros que indicam diferentes formas de colaboração empresarial com o aparato repressivo.

“A gente teve informação de muitas empresas, mas focamos em cinco delas: a Mercedes-Benz, a Volkswagen, a General Motors, a Scania e a Ford. Centramos [o trabalho] na região do ABC e nas grandes metalúrgicas”, explicou o jornalista à Agência Brasil.

Volkswagen foi alvo de investigação do Ministério Público

A relação entre empresas e repressão política já havia sido investigada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP). Em 2015, o órgão abriu procedimento, a partir de depoimentos reunidos pela Comissão Nacional da Verdade, para apurar a colaboração de empresas com a ditadura.

Entre as companhias investigadas estava a Volkswagen. Em relatório divulgado seis anos depois, o MPSP apontou que a montadora teria contribuído de maneira intensa com o aparato repressivo, com conhecimento de integrantes da direção da empresa.

A própria Volkswagen também contratou, em 2017, o historiador alemão Christopher Kopper, da Universidade de Bielefeld, para realizar uma pesquisa sobre a atuação da companhia durante o regime militar.

No estudo, Kopper afirmou que a Volkswagen do Brasil manteve uma relação de colaboração com o governo militar e com os órgãos de repressão política.

Vigilância dentro das fábricas

De acordo com os autores do livro, a colaboração não teria ocorrido apenas por meio de recursos financeiros ou fornecimento de equipamentos. Os pesquisadores também identificaram a presença de agentes ligados à repressão dentro das fábricas.

Maria Angélica Ferrasoli relata que trabalhadores eram monitorados por pessoas que se infiltravam no ambiente das empresas e repassavam informações às estruturas de repressão.

“Os arapongas eram pessoas que se misturavam ali com os trabalhadores e que depois iam dedurar quem estava fazendo reivindicações”, afirmou.

Segundo a pesquisadora, trabalhadores que participavam de greves ou movimentos reivindicatórios poderiam ser incluídos em listas compartilhadas entre empresas, dificultando a contratação em outros locais.

“Se o trabalhador participava de uma greve, ele não precisava nem ser de um partido de oposição ou de combate à ditadura, se ele participava de uma greve, ele já entrava numa lista”, relatou.

Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli no lançamento do livro Repressão Sociedade Anônima – Paulo Pinto/Agência Brasil

Empresas e estrutura repressiva

A pesquisa também identificou situações em que empresas teriam financiado equipamentos utilizados por estruturas de repressão. Segundo Reina, documentos encontrados nos registros de entrada do antigo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), em São Paulo, ajudaram os pesquisadores a chegar a essas informações.

“A gente estava analisando os livros de registro de entrada do Dops […] e ali descobrimos uma lista de ramais. Nessa lista tinha um ramal de um estande de tiro”, contou.

Ainda segundo o jornalista, os pesquisadores encontraram referências a empresas que teriam financiado equipamentos para o local, incluindo munições e protetores auriculares.

Mulheres enfrentavam controle e assédio

Outro capítulo da publicação aborda as condições enfrentadas pelas mulheres nas fábricas. As entrevistas reunidas pelos pesquisadores relatam episódios de assédio, tratamento considerado abusivo por chefes e controle do tempo utilizado pelas trabalhadoras para ir ao banheiro.

Maria Angélica Ferrasoli entrevistou mulheres que começaram a trabalhar ainda adolescentes e ouviu relatos sobre mecanismos de controle que chegavam à distribuição do papel higiênico pelos responsáveis das empresas.

“Elas precisavam pegar uma chave para usar o banheiro. Se demorassem mais do que 3 ou 4 minutos, já tinha gente batendo na porta”, relatou.

Pesquisa identifica estrutura do DOPS no ABC

Os autores também afirmam ter localizado registros sobre uma estrutura de repressão vinculada ao DOPS instalada em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, importante polo industrial do país durante o período.

Segundo os pesquisadores, o chamado “Dopinho do ABC” teria funcionado como uma estrutura de vigilância de trabalhadores e ativistas sindicais.

“A gente descobriu a existência de uma filial do DOPS no ABC que ficava a três ou quatro quadras distante da sede do sindicato. Lá, as pessoas eram presas e torturadas”, afirmou Eduardo Reina à Agência Brasil.

A pesquisa também relata o caso de um adolescente que teria sido preso e torturado no local.

Acidentes de trabalho também fazem parte da pesquisa

As condições de segurança nas fábricas durante o período também foram abordadas pelos autores. Reina citou dados de acidentes de trabalho registrados na década de 1970 e afirmou que os mecanismos de fiscalização existentes eram limitados.

“Em 1975, por exemplo, teve dia em que houve mais de cinco mil acidentes de trabalho registrados no Brasil”, afirmou.

Montadoras foram procuradas

A Agência Brasil procurou as cinco montadoras mencionadas na obra para obter posicionamentos sobre as informações apresentadas pelos pesquisadores.

Em manifestação encaminhada aos autores, a Volkswagen informou que assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público e destacou ter sido a primeira empresa estrangeira a promover uma reavaliação de sua história durante o regime militar no Brasil.

A Scania afirmou repudiar violações aos direitos humanos e informou não possuir mais documentos referentes ao período. A Mercedes-Benz declarou não ter identificado, até o momento, evidências de apoio da empresa à ditadura.

A General Motors negou envolvimento em ações repressivas ou colaboração com o regime. A Ford não havia se manifestado aos autores até o momento relatado na reportagem.

O livro “Repressão Sociedade Anônima” foi publicado pela Editora Alameda e, segundo os autores, pretende ampliar a discussão sobre a participação do setor empresarial na estrutura de repressão durante a ditadura militar brasileira.

Sugestão de manchete mais forte: “Livro revela bastidores da colaboração de grandes empresas com a repressão na ditadura militar”.

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